Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » `Le Havre`

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Maio 2011 | 16h30

CANNES – Tive hoje um dia cheio, cheio de filmes e, nos intervalos, entrevistas. Conversei com os irmaos Dardenne, com Cecile de France. Achei-a maravilhosa. Com Jean-Pierre e Luc me reconciliei. Ambos foram muito carinhosos comigo, lembrando nosso juri da Camera d`Or. Justamente aquele juri. Havia ficado bodeado com os irmaos por causa de sua incompreensaoh pelo cinema iberoamericano. Naoh estava lah como defensor do cinema da America Latina, mas os filmes que mais me interesaram, o `Hamaca Paraguaya`, o `Quixote` de Albert Serra, foram os que eles menos entenderam. Inversamente, eles bancaram aquele filme sobre a queda da ditadura de Ceaucescu, `A Leste de Bucareste`, e ele passou pela minha vida sem deixar a menor marca. Depois disso, naoh gostei de `O Silencio de Lorna`. Meio que ensaiei naoh gostar de `O Garoto da Bicicleta`, Le Gamin au Velo, mas o filme, a cada vez que penso nele, cresce. Mesmo assim, duvido que ganhe. A terceira Palma para os Dardenne? Naoh creio. Quero dizer que amei o Aki Kaurismaki que vi hoje de manhah, `Le Havre`. Eh curioso como a mise-en-scene de Kaurismaki, a sua maneira de usar o espaco, taoh depurada, tah minimalista, a obsessaoh por gente feia e de repente estamos completamente envolvidos com aqueles homens e mulheres que parecem vencidos pela vida, mas naoh saoh, tudo isso tem a ver com o metodo de Bruno Dumont. O autor finlandes ainda acrescenta seu gosto por uma trilha, como direi? Exotica? Diferente? Um velho tango de Gardel, uma cancaoh de Edith Piaf. Havia visto o Dumont ontem, `Hors Satan`. O Kaurismaki, hoje, eh melhor. Um engraxate cuja mulher eh hospitalizada, em estado grave. Ele toma sob sua protecaoh um garoto africano, um imigrante clandestino procurado pela policia. Que filme mais bonito! Foi o mais aplaudido da competicaoh, ateh agora. A selecaoh de Cannes 2011 divide-se em filmes que retratam o mundo como doente, a sociedade como perversa, quando naoh pervertida. Muitos filmes sobre a relacaoh pai/filho. E existe outra vertente que insiste em acreditar no humano – os Dardenne, o filme de Kaurismaki. Amei!