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Luiz Carlos Merten

13 Janeiro 2010 | 12h29

Estou de volta a São Paulo, mas só por algumas horas. À noite, embarco para Paris, onde fico uma semana, regressando na sexta-feira, dia 22. Ontem passei o dia viajando e, pela diferença de horário, ao sair de Los Angeles, mesmo dando uma viajada rápida na internet, não vi a noticia que me deixiou agora em choque, dada por vocês. Morreu Eric Rohmer. Ou eu me engano muito ou ele era o decano da nouvelle vague, mais velho do que o próprio Alain Resnais e só um pouquinho mais novo, coisa de dois/três anos, do que Jean-Pierre Melville, que, como Rohmer, usava pseudônimo. SEu nome de verdade era Maurice Sherer, mas foi como Eric Rohmer que ele se tonou uma referência para cinéfilos de todo o mundo. 90 anos! Lembro-me de uma rara entrevista do dirtor, qe detestava ‘aparecer’. Para o tipo de filme que fazia, ele era o primeiro a reconhecer a importância do anonimato. Isso lhe permitia andar de metrô, frequentar bares e restaurantes ou, simplesmente, sentar-se numa praça para observar as pessoas e, depois, roubar alguma coisa do seu comportamento, dos seus gestos, que colocava nos filmes, sempre tão exatos. Rohmer talvez tenha sido o autor mais singular das nouvelle vague. Seu cinema é quase abstrato – pelos temas, pelo rigor da realização – e não existe diretor mais ‘concreto’. Esse paradoxo não é tão surpreendente se lembrarmos que Rohmer, crítico nos Cahiers du Cinéma’, co-escreveu com Claude Chabrol um livro sobre Alfred Hitchcock cujo dogma é justamente o paradoxo como motor da mise-en-scene do mestre do suspense.
Vou abrir um parágrafo. Jean Tulard, no ‘Dicionário de Cinema’, que estou podendo consultar – estou em casa -, diz que, no começo de sua carreira, ele foi levado pela nouvelle vague, mas não se impôs de imediato, pelo menos não do mesmo modo que François Truffaut, Jean-Luc Godard ou seu parceiro Chabrol. E por que? Justamente por ser discreto, reservado. Rohmer era cultuado por poucos e sua consagração foi tardia. Mas ela veio. Sua obra se construiu em torno de dois ciclos, o dos contos morais e o das comédias e provérbios. À margem de ambos, Rohmer exercitou seu gosto pela adaptação literária, vertendo para a tela Kleist (‘A Marquesa d’O’) e Chrétien de Troyes (‘Perceval le Gaullois’). Tulard observa que a obra de Rohmer faz alusões a F.W. Murnau e Kenji Mizoguchi, mas acima de tudo ela carrega a marca do autor. Rohmer era rigoroso, minimalista, elegante, mas também frio. Imagino que cada um de seus admiradores terá seu Rohmer preferido. O meu é ‘Minha Noite com Ela’, Ma Nuit chez Maud, em que Jean-Louis Trintignant resiste à sedução que, sobre ele, exerce Françoise Fabian. Trintignant assume que é comprometido e não vai trair a mulher, mas no final do filme, como fina ironia, vem a revelação de que, enquanto ele resistia, ela o estava traindo. Essa preferência, eu sei, é puramente pessoal e até arbitrária, e tem muito a ver com o fascínio que Françoise Fabian, a viúva de Jacques Becker – depois, se não me engano, ela se casou com Lino Ventura -, sempre exerceu sobre mim. A reconhecida obra-prima de Rohmer costuma ser ‘Les Nuits de la Pleine Lune’. Não havia gostado muit de ‘Triple Agent’, seu filme de espionagem, que me pareceu um tanto bizarro no conjunto da obra, mas, em compensação, me apaixonei por ‘Les Amours d’Astrée et Celadon’, que pertence à linhagem de ‘A Marquesa d’O’ e ‘A Inglesa e o Duque’. Tenho aqui em casa o livro da coleção Champs Contre-Champs, da Edtora Flammarion, que faz uma seleção de textos de Rohmer, escolhidos e comentados por Jean Narboni. O título é maravilhoso, ‘Le Gout de la Beauté’, O Gosto da, ou pela, Beleza. É perfeito para definir a própria obra do autor. A capa é ilustrada por uma imagem de ‘Le Genou de Claire’, O Joelho de Clara, com Jean-Claude Brialy. Alguns textos são clássicos – ‘Le Celluloïd et le Marbre’, no qual Rohmer interroga o cinema a partir das outras artes, e o que exprime sua teoria, ‘L’Age Classique du Cinéma’, cuja tese é a de que, no cinema, o classicismo nao representa o passado, mas a vanguarda. Em 1983, quando o livro saiu, Rohmer deu uma entrevista – para Narboni – dizendo não estar mais tão certo de que isso seria verdade. Hoje eu arrisco a achar que ele voltaria a crer na própria tese. E o livro tem um texto que me encanta. Num capítulo com o título sde ‘Por Um Cinema Impuro’, Rohmer justifica seu voto para ‘Ao Sul do Pacífico’, de Joshua Logan, um dos musicais mais execrados da história do cinema, mas que ele colocou entre os melhores do ano (deve ter sido em 1958, ou 59, quando ele estava fazendo seu longa de estreia, ‘Le Signe du Lion.’