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Le Deuxième Souffle

Luiz Carlos Merten

25 Novembro 2007 | 14h31

Não sei se já havia comentado aqui, antes, mas tenho uma admiração muito grande por Jean-Pierre Melville, o chamado ‘mais norte-americano dos diretores franceses’, a quem se devem grandes filmes policiais (e de gângsteres). Nos melhores, obras com ‘O Samurai’ e ‘Un Flic’, que aqui se chamou ‘Expresso para Bordeaux’, os dois com Alain Delon, Melville cria um mundo gelado, no limite da abstração, em que seus trágicos (anti)heróis contam somente com a amizade viril como arma contra a corrupção, a violência e a morte. Melville foi muito fiel a uma mitologia celebrada por Hollywood, mas, ao mesmo tempo, desconstruía o cinema hollywoodiano de ação e criava um modelo francês de narrativa, extremamente denso e intelectualizado. Em 1966, em plena nouvelle vague – e Melville é considerado um dos precursores do movimento, com ‘Quando Leres Esta Carta’ e ‘Bob le Flambeur’ -, o cineasta buscou inspiração num original de José Giovanni e fez ‘Os Profissionais do Crime’ (Le Deuxièmee Souffle), com Lino Ventura e Paul Meurisse. Giovanni detestava o filme e achava que as escolhas narrativas de Melville o traíam, mas o filme virou cult – tão cult que é até surpreendente que Alain Corneau tenha assumido o desafio de refilmar o clássico melvilliano. A nova versão de ‘Le Deuxième Souffle’, com Daniel Auteuil, acaba de estrear na França. A crítica está sendo respeitosa com Corneau, que tentou o impossível – como melhorar Jean-Pierre Melville? -, e ainda foi adiante. Corneau homenageia o autor da versão antiga com respeito às escolhas narrativas que José Giovanni defendia. Pode ser que o interesse de tudo isso seja muito relativo – seria necessário, por exemplo, conhecer o filme antigo -, mas eu confesso que estou louco para ver ‘Le Deuxième Souffle’. Não seria nada mau se Jean Thomas Bernardini, da Imovision, ou André Sturm, da Pandora, os dois distribuidores brasileiros mais atraídos pela produção francesa, trouxessem o filme para o mercado brasileiro. Falei em Melville e quase nada sobre Alain Corneau, mas ele é considerado o sucessor de Jean-Pierre nessa especialidade que é o filme noir. ‘Police Python’, ‘Encurralado para Morrer’ e ‘Série Noire’ esculpiram sua reputação, mas depois ele começou a mudar. Em ‘Noturno Indiano’, voltou-se para o universo de Antonio Tabucchi, o tradutor italiano de Fernando Pessoa – e Tabucchi, como seu mestre, é atraído pelo desdobramento de identidades -, contando a história desse homem atormentado (Jean-Hughes Anglade) que faz uma peregrinação à Índia, ao som do ‘Quinteto de Cordas em Dó Maior’ de Schubert. Em ‘Todas as Manhãs do Mundo’, Corneau prestou outro belíssimo tributo à música (e ao senhor de Saint-Colombe). O filme conta com uma interpretação imperial de Jean-Pierre Marielle, que observa que a música foi criada para expressar aquilo que as palavras não conseguem dizer e ele acrescenta – ‘Neste sentido, ela (a música) não é totalmente humana.’ (É o quê? Divina?) ‘Le Deuxième Souffle’ marca o retorno de Corneau à série negra. Como não ter vontade de ver o novo filme de um diretor enriquecido por tantas experiências?