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Luiz Carlos Merten

04 Janeiro 2008 | 08h36

Nunca vi os curtas famosos de Agnès Varda, nem quando foram exibidos na grande retrospectiva que houve da obra dela aqui em são Paulo. ‘O Saisons O Chateaux’ e, principalmrente, ‘La Pointe Courte’ são considerados precursores da nouvelle vague, mas não posso avaliar a influência destes filmes na eclosão da nova onda do cinema francês (nem seu impacto sobre o primeiro Resnais, a quem Varda costuma ser relacionada). Em compensação, acho que vi todos os longas da diretora, incluindo seus documentários, entre eles o deslumbrante ‘Les Glaneurs et la Glaneuse’, sobre catadores de lixo, que Evaldo Mocarzel, com certeza, viu antes de fazer ‘à Margem da Imagem’. Lembro-me do impacto de ‘Cléo das 5 às 7’ e, logo em seguida, de ‘As Duas Faces da Felicidade’ (Le Bonheur), em que Agnès expressou o desejo masculino das duas mulheres. Um homem casado (e pai), pequeno burguês perfeito, se envolve com outra mulher, mas ele não quer abandonar a esposa. Quer as duas. A impossibilidade de tê-las – uma se mata – lança uma nuvem sobre a tal felicidade. Falamos aqui outro dia sobre a beleza visual dos filmes e eu tenho a impressão que já disse que ‘Le Bonheur’ é o filme mais bonito que já vi. A fotografia é luminosa, parece uma tela impressionista, em que a luz (o sol) cria texturas de uma delicadeza nunca vista. Lembro-me da indagação famosa de ‘Cahiers du Cinéma’ sobre Agnès Varda, num número especial sobre a nouvelle vague – ‘É possível amar ao mesmo tempo Mao e os antiquários? Agnès Varda provou que sim.’ Adoraria rever ‘As Duas Faces da Felicidade’, para ver se o filme resiste. Agnès era mulher de Jacques Demy. Ele era delicado até o limite. Ela acho que tentava compensar isso sendo a parte ‘viril’ do casal. Posso estar fazendo psicanálise barata, mas na única vez que entrevistei Agnès – em Cannes, no começo dos anos 90, quando ela mostrou ‘Les Demoiselles Ont Eu 25 anos’, em homenagem a um dos filmes cults do marido (‘Duas Garotas Românticas’/Les Demoiselles de Rochefort) -, fiquei impressionado com sua rudeza. Não é que ela fosse antipática ou mal-educada (não era), mas se alguma vez vi uma mulher que se assemlhasse a um rolo compressor, foi Agnès. Há um culto a Demy, o diretor de ‘Lola’, ‘La Baie des Anges’, ‘Os Guarda-Chuvas do Amor’ e ‘Pele de Asno’. Agnès Varda é a oficiante. Nunca vi devoção maior de uma viúva ao marido que se foi. O depoimento de Agnès em ‘Janela da Alma’, de João Jardim e Walter Carvalho, quando ela fala da agonia de Demy e de como o viu em seu leito de morte, é uma das coisas mais pungentes que conheço. Viajei legal na lembrança de Agnès Varda. Deve estar velhinha, 80 anos (ou quase). Lembro-me da polêmica que provocou ‘Les Créatures’ em 1965/66. Agnès filmou meia-dúzia de personagens que eram manipulados como marionetes. É outro filme que gostaria de rever. Na época, não gostei muito, mas a própria Varda semptre teve muito apreço por suas ‘criaturas’. Preciso articular melhor este discurso para saber porque saí de ‘O Livro das Revelações’ pensando, não no filme de Ana Kokkinos, mas em Agnès Varda.