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Luiz Carlos Merten

10 Maio 2008 | 16h55

Se vocês viram o ‘Caderno 2’ de hoje, muito provavelmente encontraram meu texto sobre o lançamento em DVD, pela Lume, de dois autênticos clássicos do cinema japonês. ‘O Anjo Embriagado’, de 1948, era considerado pelo próprio Kurosawa o verdadeiro início de sua carreira. Embora ele já estivesse dirigindo desade 1943, a rígida censura durante a guerra e, depois, no clima de caos que dominava o país, impedia-o de fazer os filmes como queria. Como ele próprio disse mais de uma vez, ‘O Anjo’ foi o filme que ele quis fazer, e fez do jeito que queria. Mas existe ainda alguma coisa melhor do que este Kurosawa no pacote de maio da Lume. É ‘Contos da Lua Vaga’, de Kenji Mizoguchi, que tem aquele acréscimo – o título completo é ‘Contos da Lua Vaga após a Chuva’. O filme é de 1953 e foi premiado no Festival de Veneza, no ano de ‘Os Boas VIdas’, de Federico Fellini, e do brasileiro ‘Sinhá Moça’, de Tom Payne. (Naquele ano, só como curiosidade, o júri não atribuiu o prêmio máximo, substituindo o Leão de Ouro por vários de Prata. O filme do Brasil ganhou um prêmio especial.) Mizoguchi forma com Yasujiro Ozu a dupla dos grandes mestres japoneses cujas carreiras vinham do período silencioso. Ozu construiu toida uma estética para expressar na tela as transformações da família tradicional japonesa do ângulo de um observador, sentado na esteira de tatame. É matéria de comjetura o porquê desta localização da câmera, levemente baixa. Significava uma contemplação, acaso uma vontade de atribuir mais importância àqueles personagens anônimos que o seduziam e, afinal, paradoxalmente, eram filmados em contraplongê, ângulo reservado para os heróis – será? Heróis do cotidiano? Pode ser. Ozu morreu no dia em que completava 60 anos e a mim sempre impressionou muito o fato de que ele quisesse que, na sua lápide, constasse somente o ideograma japonês para ‘nada’. Grande como era, Ozu era alcoólatra e talvez não tivesse muito apreço pela própria fragilidade, não sei. Esse desejo de anulação não impediu que ele fosse consagrado como um dos grandes do cinema japonês (e do mundial…) de todos os tempos. Apenas demorou mais um pouco porque, como diziam os críticos, Ozu era muito oriental para ser assimilado pelo Ocidente. Seu contemporâneo Mizoguchi viveu ainda menos, 58 anos – nasceu em 1898, morreu em 1956 -, mas de alguma forma pode-se dizer que a sua última fase na empresa Daiei, constituída só por obras-primas, obteve reconhecimento imediato, no Ocidente, inclusive. Estava escrevendo sobre ‘Contos da Lua’ – uma história de fantasmas, mas não no sentido do cinema de terror ocidental, com fantasmas assustadores; os de Mizoguchi integram-se com naturalidade ao mundo dos vivos – e comentei, no ‘Caderno 2’, o método dele – onde cut/one shot. Mizoguchi filmava, geralmente só uma tomada, depois de ensaiar muito, e ele já sabia o lugar que a cena ia ocupar na montagem. O que eu amo, em Mizoguchi, é a frase dele, que dizia que é preciso lavar os olhos, entre uma tomada e outra. Trocando em miúdos, ele defendia um cinema livre de todo ornamento – embora tenha feito filmes plasticamente suntuosos para celebrar a imperatriz e a prostituta (a mulher é a grande personagem de seu cinema, mesmo em ‘O Intendente Sansho’). Confesso que eu mesmo às vezes me interrogo – como posso gostar do rigor de Mizoguchi, de Ozu, de Robert Bresson e, ao mesmo tempo, absorver (e considerar válido) o artifício assumido de filmes como ‘Moulin Rouge’, de Baz Luhrmann, ou agora ‘Speed Racer’, dos irmãos Wachowski? Dei uma entrevista quinta-feira para o jornal da ABI, a Associação Brasileira de Imprensa, e eles me cobraram justamente isso. Sei que tem gente que me critica e até acha, por isso, que não tenho uma ‘visão’ do cinema, mas o próprio pessoal da ABI que me entrevistou lembrou-se de uma coisa que, segundo eles, eu disse aqui no blog – eu tenho uma teoria do cinema, sim, e é a minha. Está expressa principalmente no livro ‘Cinema – Entre a Ralidade e o Artifício’, título que, para mim, tem valor de um manifesto. E a verdade é a seguinte – quem não gostar que invente outra (teoria). Enquanto eu viver, vou defender – depois ficarão os escritos – que é possível, sim, harmonizar métodos distintos e até opostos, mas que não são tão diferentes assim no que os autores estão querendo dizer. Acho que, basicamente, é isso – a afinidade eletiva vem muito mais do que o autor me diz sobre o mundo do que sobre o cinema. O olhar do outro me fascina e eu quero dialogar com ele, não insistir que o meu método é melhor.