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Luiz Carlos Merten

28 Novembro 2006 | 09h38

Tenho de fazer rapidinho uma confissão (mais uma). Estou no jornal postando este texto antes de ir correndo para a sessão de imprensa de O Bom Ano, de Ridley Scott, que estou louco para ver. Mas a confissão não é esta. No começo dos anos 70, morava em Porto Alegre, o Brasil vivia sob a ditadura militar. Uruguai e Argentina também viviam ciclos sazonais de ditaduras, mas fosse porque os milicos deles fossem cinéfilos ou menos burros podia-se ver em Montevidéu e Buenos Aires filmes que eram proibidos no País. Lá me fui eu num fim de semana ver Laranja Mecânica, de Kubrick. É preciso viajar um pouquinho no tempo. Kubrick havia feito pouco antes 2001 e, no retrospecto, a carreira dele tinha Dr. Fantástico, Spartacus, Glória Feita de Sangue e outros clásssicos. Ou seja, Kubrick era o máximo. A sessão, que era de pré-estréia, era às onze da noite, ou meia-noite, não me lembro. Sei que jantamos, minha ex-mulher e eu, e como tínhamos tempo sobrando até a hora da sessão, fomos passear um pouco na 18 de Julho, a avenida principal deles. Montevidéu, naquele tempo, era uma loucura, um centro de agitação política. Passamos num cineminha tipo poeira, que anunciava um filme chileno. Vamos ver? Vamos – total, não estamos fazendo nada. O filme era El Chacal de Nahueltoro e eu tive um dos maiores choques da minha vida. Nunca revi o filme do Littín, mas aquela história do sujeito iletrado, um bronco, que comete um assassinato e vai preso, sendo condenado, me bateu de um jeito que fico arrepiado só de pensar. Na prisão, ele aprende a ler, a escrever, adquire uma profissão e consciência do horror que praticou. Vira outro homem, mas o sistema o educa para puni-lo, sem possibilidade de liberdade. Era, descobri depois, o tema do filme do Kubrick, adaptado do livro de Anthony Burgess. Kubrick é um dos autores com lugar cativo no meu panteão particular. Mas nunca consegui gostar de Laranja Mecânica. É o filme dele pelo qual tenho a admiração mais fria, mais distante. Não consigo nunca me lembrar de Laranja sem que venha associado o Chacal de Nahueltoro, com sua complexidade. Littin era um Bresson menos metafísico, mais social. O Chacal, na cadeia, descobre na punição uma outra liberdade, como o herói de Pickpocket. Acho que foi ali, naquela noite, correndo atrás de Kubrick, que assumi, com Littín, a minha latinidade. Por que conto isso? Porque Laranja Mecânica passa hoje de madrugada no SBT. Me conheço. Tenho o filme em DVD, mas sei que vou dar uma zapeada, na hora, sempre atraído por essa possibilidade de um dia gostar de verdade desta obra que, para mim, ficou menor, mesmo assinada por um autor maior.

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