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Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2012 | 09h06

Arrastei meu amigo Dib Carneiro para ver ‘L’Apollonide’, ontem à noite. Cada vez gosto mais do filme de Bertrand Bonello, que me perturba muito, mas sua beleza (audio)visual enche meus olhos e ouvidos e o patetismo de certas cenas me corta o coração. Não sou de ler críticas alheias, mas neste caso confesso que tenho curiosidade de saber como reagem (reagiram) minhas colegas críticas. O filme deve ser duro de ver, e apreciar, da perspectiva feminina. Aquelas mulheres prisioneiras da casa, a falta de perspectivas, a angústia permanente de fingir – mesmo que algumas delas gostem dos homens com quem fazem sexo –, a fragilidade e vulnerabilidade, expressas na entrega de Madeleine, que termina desfigurada pelo cliente, virando a Mulher que Ri, nada disso deve ser fácil. Mas eu confesso que, do ponto de vista masculino, o filme é u7ma viagem. As p… de Bonello são uma fantasia de seus homens e eu amo aquele plano inicial, que mostra as ‘meninas’ se arrumando. Seminuas, elas compõem um grupo heterogêneo, mas de uma beleza de cortar o fôlego. Muitas não possuem uma beleza, digamos, clássica, algumas talvez nem sejam bonitas, por qualquer padrão de análise. Mas elas são belas, se fazem belas e os corpos são todos obras-primas da natureza. Amo a indolência daquela pantera que parece domesticada, mas o instinto não consegue ser domado e ela termina usada para uma vingança. No meu texto para o ‘Estado’, fiz uma analogia com ‘A Pele Que Habito’, de Almodóvar. Chamei minha matéria ‘A Pele Que Elas Habitam’. Essa ponte, talvez muito subjetiva, passa por uma frase que redigi anteriormente – as p… como criação masculina, da mesma forma que, no filme de Pedro, Antonio Banderas esculpe o objeto de seu desejo e tem a cena magnífica, uma das mais belas da carreira do autor, em que Elena Anaya olha a foto de quem foi. O que se lê naquele olhar depende da adesão de cada um ao filme. Madeleine, antes de virar a Mulher Que Ri, narra para o cliente seu sonho, o esperma, do qual ela está cheia e que verte como lágrimas dos seus olhos. ‘L’Apollonide’ faz a crônica do fim de uma época. A p… verte lágrimas de porra (perdão pela grosseria). É genial, mas também pode ser excessivo. Robert De Niro, presidente do júri de Cannes, ignorou o filme. (No catálogo da Mostra de Tiradentes, o homenageado Selton Mello dá uma entrevista e fala, entre outras coisas, de seus atores preferidos. Marlon Brando, Marlon Brando, Marlon Brando. E Al Pacino. Sobre De Niro, diz uma coisa que há tempos me parece óbvia. De Niro cansou, desmotivou-se, pendurou as chuteiras, não atua mais e virou sombra de si mesmo.) Vi muitos filmes sobre prostituição, quem não?, mas ‘L’Apollonide’ é o que mais mexe comigo. Gosto de ‘Viver a Vida’, do Godard, e Bonello, aqui num outro nível, reproduz o comércio. As p… não dizem – ‘Vamos fazer sexo,. amor?’ Dizem – ‘Vamos fazer comércio?’ O corpo como alienação. (Curioso – em Tiradentes, revi ‘As Últimas Putas de Paris’, curta de Ana Paula Nogueira em que as agora velhas prostitutas voltam-se para o passado e lembram com nostalgia como foram felizes no bordel do Centro do Rio.) Tentei falar com Bonello, mas não consegui. Antes de entrar na sala da Reserva Cultural,  vi que saiu uma entrevista dele na ‘Folha’. Não faço ideia de quem fez nem li, porque vi de longe, mas o título me chamou a atenção – “Fiz um filme casto sobre sexo”, alguma coisa assim. Sorry, Bertrand, mas não é tão casto assim. Vi, pela movimentação – estava sentado nas primeiras filas –, que espectadores lá atrás foram embora. Muitos? Como se abandona um filme desses, não sei.