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Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2009 | 11h27

LISBOA – Estava um frio do cão ontem, na chegada a Lisboa. Uma chuva fina, ia dizer miúda, mas a palavra aqui é empregada para se referir a crianças. Cheguei e, com aquele tempo – hoje de manhã faz sol -, almocei e corri para o cinema. Fui ver ‘Frost/Nixon’ e, na sequência, ‘Austrália’. Lembro-me que, quando publiquei uma série de posts sobre Stanley Kramer, alguém – terá sido o Fábio Negro? -, levantou a lebre de que o Ron Howard poderia ser o Stanley Kramer do cinema atual. Ele ou o Edward Zwick… Não consigo ser duro com nenhum dos dois. Gosto de algumas coisas do Ron Howard, mas acho que tenho certo carinho é pelo próprio cara, que vi quando garoto – miúdo – em ‘Papai Precisa Casar’, de Vincente Minnelli, e depois como adolescente em ‘O Último Pistoleiro’, de Don Siegel (isso para não falar em ‘Loucuras de Verão’/American Graffiti, de George Lucas). Do Zwick, gosto de ‘O Último Samurai’, de toda aquela parte com o Ken Watanabe, para quem a Academia de Hollywood, criminosamente, não deu o Oscar de coadjuvante (m… de prêmio). Achei ‘Frost/Nixon’ bem interessante. O filme conta a história da famosa entrevista que o ex-presidente Richard Nixon deu ao jornalista David Frost, após a renúncia, deixando implícita sua culpa. Nixon começa a entrevista, e o filme, engolindo Frost, que se sente cada vez mais acuado e perdido. E aí, aguardem pelo filme, o jornalista recebe um telefonema do próprio entrevistado no meio da noite, que vai mudar tudo. Nada mais próximo de Ron Howard. A virada, na hora da derrota. O filme tem roteiro de Peter Morgan, que já escreveu ‘A Rainha’ e ‘O Último Rei da Escócia’, proporcionando a Helen Mirren e Forest Whitaker que ganhassem o Oscar. Não creio muito nas chances de Frank Langella, mas ele bem poderia confirmar a escrita sobre Morgan e ganhar o Oscar de melhor ator do ano, para o qual está indicado. Langella já deveria ter levado a estatueta de coadjuvante por ‘Boa Noite e Boa Sorte’, mas a academia preferiu premiar George Clooney, muito mais glamouroso. O Nixon de Langella é um trabalho excepcional. Saí do cinema atordoado e entrei de sola no épico de Baz Luhrmann, que eu pareço ser o único a defender. Aliás, acho que é minha sina. Já havíamos feito um gostei/não gostei no ‘Caderno 2’, sobre ‘Moulin Rouge’, eu defendendo e o Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, espinafrando o musical de Luhrmann com Nicole Kidman. Tivemos agora novo gostei/não gostei, mas quem caiu de pau matando no diretor australiano foi o Toninho, Antônio Gonçalves Filho. Ah, Toninho… Havia construído minha defesa de ‘Austrália’ no fato de o filme ser uma reinvenção de ‘Assim Caminha a Humanidade’, Giant, o épico de George Stevens com Elizabeth Taylor como a ‘estrangeira’, papel que Nicole Kidman retoma em ‘Austrália’. Não renego a leitura, mas Baz Luhrmann fez a síntese de ‘Giant’ com ‘O Mágico de Oz’ para construir mais uma obra de grande riqueza dramática e estilística, sobre o tema da volta ao lar, que transforma em investigação de linguagem. O verdadeiro tema de ‘Austrália’ é a linguagem, como se constrói uma história e como essa história, que afinal de contas é o nosso legado, se relaciona com a grande História, a com H maiúsculo. Nicole Kidman e Hugh Jackman podem formar a dupla romântica – e Luhrmann, com seu gosto pelo kitsch, permite-se a cena em que Nicole vê o aventureiro se banhando -, mas os grandes personagens de ‘Austrália’, como épico sobre a construção da identidade australiana, são Nullah e King George. Uma das cenas mais belas de ‘Os Eleitos’, de Philip Kaufman, era quando o feiticeiro, nos confins da Austrália, invocava o fogo e o grande foguete decolava para as estrelas. Luhrmann deve ter visto ‘Os Eleitos’ – as visões de King George são sempre relacionadas ao fogo, que varre a terra, nos grandes momentos, e Lady Ashley vai ser a chuva, a água que lava tudo e permite a reconstrução. A última cena, que não vou contar, me caiu como um raio. Evocou ‘There was a boy’, na abertura de ‘Moulin Rouge’. Posso estar sozinho na admiração por ‘Austrália’. Tudo bem – prefiro estar assim a participar dos grupos que batem palmas para os Coens.

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