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Cultura » Lang, para o Mauro

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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2012 | 10h38

Mauro Brider comenta o post sobre Fritz Lang e a psicanálise e pede que fale sobre ‘Os Corruptos’, que, para ele, é a obra-prima do grande diretor. Pode ser, Mauro, mas eu confesso que gosto muito dos dois filmes de Lang com Glenn Ford. ‘Desejo Humano’, um remake de Jean Renoir, é tão bom quanto, embora sua fama seja de obra menor e aquele movimento circular da câmera quando o marido volta para casa, expondo a mediocridade do seu universo fechado que exaspera a mulher, aquilo é minimalista, feito com economia, mas tem uma potência cênica que me deixa embasbacado. Mas, para um leitor de aventuras, como eu, ‘O Tesouro do Barba Rubra’ tem um significado todo especial. Revi o filme não faz muito, num daqueles cineminhas de art et essai de Paris, e saí no sétimo céu. O que vou escrever agora talvez me crie problemas, mas Paris é o sonho romântico de muito casal. Eu curto Paris acompanhado, mas gosto mais da cidade quando estou sozinho. Vou ao nirvana, sem droga nenhuma, quando me sento naquele café, na esquina do Boulevard Saint Michel com o Sena e fico vendo a vida passar. Havia, quando era jovem, por volta de 1960 – 15 anos, fodido, sem grana – uma música que até hoje ecoa em meus ouvidos. Aprendi a falar francês no ginásio. Era bom, mas Paris me parecia simplesmente o sonho impossível. Hoje, quando ando por ali, a música vem, a toda hora. ‘Mesmo estando só eu me sinto feliz/huu/cantando a canção que embala Paris./Mulheres que passam…’ Santo Bergman, o desfecho de ‘Gritoas e Sussurros’. A vida é feita de momentos. E, de volta a Lang, o cinema dele tem muitos momentos que me inundam. No cinema norte-americano, ainda mais, mesmo que o grito de socorro de Peter Lorre em ‘M’ – ‘Alguém, me ajude!’ – seja dilacerante e a troca de olhares que precede a dança que termina em assassinato no ‘Tigre da Índia’ seja outro toque de gênio.