Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ladrão de Casaca

Cultura

Luiz Carlos Merten

01 Junho 2007 | 11h29

Hitchcock fez filmes melhores – Janela Indiscreta e Um Corpo Que Cai (Vertigo), embora eu, pessoalmente, me incline mais por Psicose e Marnie, cujas imperfeições me tocam de uma maneira muito particular –, mas tenho a impressão de que, se for escolher seu filme mais prazeroso de ver, a maioria do público e da crítica não vai hesitar, escolhendo entre Interlúdio (Notorious), dos anos 40, com a dupla clássica Cary Grant/Ingrid Bergman, e Ladrão de Casaca, dos 50, com Grant e Grace Kelly. Acho que este é o exemplo supremo do divertissement no cinema. Ladrão de Casaca está saindo em DVD pela Paramount. Já havia sido lançado, mas a edição agora é para colecionadores. Conta a história do ladrão aposentado que volta à ativa para descobrir quem está usando seu método para roubar jóias na Riviera Francesa. Os filmes de Hitchcock com James Stewart são, em geral, mais densos. Com Cary Grant, ficam mais leves. Mas é curioso que, com ambos, em Janela Indiscreta como em Ladrão de Casaca, na hora H Stewart e Grant dependem de Grace Kelly para desmascarar o verdadeiro culpado. A propósito – existe um estudo sobre o feminismo em Hitchcock. Chama-se As Mulheres Que Sabiam Demais. É muito curioso, mesmo que não possa ser levado inteiramente a sério. Ladrão de Casaca foi o último filme interpretado por Grace Kelly. Durante a filmagem, ela conheceu um certo príncipe, em Mônaco, e terminou por se casar com ele. Não viveram felizes para sempre, como nos contos de fadas, porque Grace, por mais classuda que fosse, não era talhada para o rígido protocolo da corte, de qualquer corte. Suas biografias batem sempre na mesma tecla – sexualmente liberada, em Hollywood, ela nunca foi feliz na camisa-de-força do casamento. Seja como for, Ladrão de Casaca entrou para a lenda como o filme que fez a princesa de Hollywood virar princesa de verdade. Também foi durante a filmagem que dois críticos franceses da revista Cahiers du Cinéma, ambos tietes do mestre do suspense, Claude Chabrol e François Truffaut, foram visitá-lo no set. Um deles, de tão perturbado, caiu na piscina e Hitchcock achou que se tratava de uma piada tipicamente hitchcockiana. Anos mais tarde, acho que em 1965/66, o detalhe ajudou a pavimentar a via para que Truffaut penetrasse na intimidade do mestre e fizesse um livro de entrevistas que se tornou clássico – Le Cinéma Selon Hitchcock, lançado, anos mais tarde, no Brasil, pela Brasiliense como Hitchcock/Truffaut e agora reeditado pela Companhia das Letras. É o mais singular de todos os livros sobre grandes diretores. Durante boa parte do tempo, Hitchcock , autocrítico, precisa conter os arroubos de Truffaut, que tende a achar tudo o que ele fez genial. Ladrão de Casaca tem ação, suspense, romance – e muito humor. Algumas das tiradas mais divertidas surgem da presença de Jessie Royce Landis, que faz a mãe de Grace na história. Quatro anos mais tarde – Ladrão de Casaca é de 1955 –, ela faria a mãe de Cary Grant em outra gema hitchcockiana, Intriga Internacional. Hitchcock adorava as loiras frias – Ingrid Bergman, Grace Kelly, Tippi Hedren. Ele enchia seus filmes de referências a sexo. Na abertura de Marnie, Tippi carrega uma bolsa dobrada que assume o formato dos lábios de uma vagina. Ela viola segredos de cofres, menos pelo prazer de roubar do que para expressar seu desejo de se liberar – o que vai ocorrer, mais adiante, no filme, na cama com Sean Connery. Em Ladrão de Casaca, Jessie apaga o cigarro na gema do ovo. Adiante, Grant e Grace vão se beijar contra o fundo de fogos de artifícios que estouram na Côte D’Azur. As duas cenas tratam de sexo – a penetração e o orgasmo. Hitchcock era f… A edição de colecionador de Ladrão de Casaca é um regalo que chega repleto de extras, incluindo o comentário de Peter Bogdanovich, crítico que virou diretor e que, na era pré-Martin Scorsese, foi responsável pelo resgate de um cinema americano clássico pelo qual os críticos não tinham muito apreço. Bogdanovich escreveu um livro e fez um documentário sobre John Ford. Escreveu outro livro resgatando a fase hollywoodiana de Fritz Lang que, embora some metade (ou quase) da obra do grande diretor expressionista, sempre foi negligenciada em relação à sua primeira fase alemã. E Bogdanovich ainda deu sua carta de nobreza a Allan Dwan, sendo dos primeiros a desvendar as implicações políticas de Homens Perigosos, no qual o vilão se chama McCarthy e acusa um inocente, sendo morto, no desfecho, por uma bala que ricocheteia num sino! Bogdanovich dá um belo depoimento sobre Hitchcock e Ladrão de Casaca. O DVD tem trailer, making of e o escambau. Tem o filme, que é o melhor de tudo. Para cinéfilos, é um item obrigatório.