Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Ladrão de casaca

Cultura

Luiz Carlos Merten

07 Maio 2012 | 12h49

Terminei minha noite de ontem na emergência do 9 de Julho. Os choques térmicos no Recife acabaram comigo. Estou tossindo, com o peito congestiado. Fiz uma chapa do pulmão e até por conta do meu quadro de pneumonia do ano passado, entrei no antibiótico. Ó, ceus! Havia acabado de ler um pocket da L&PM, ‘Ladrão de Casaca’, com as aventuras de Arsène Lupin. Ainda estava com o livro no bolso, aproveitei para reler no ambulatório. Vocês sabem da minha paixão por Agatha Christie, Georges Simenon e Conan Doyle. Vou incluir agora o Maurice Leblanc no lote. Viajei nas histórias do livro, que podem ser lidas isoladamente, mas avançam em bloco, formando um relato único. O filme começa e termina com o ladrão diante da mulher amada, Miss Nelly. O relato que Leblanc faz do reencontro, quando Arsène se esconde para não ser surpreendido, ao roubar. Ele fica atrás da cortina, percebe, por seu perfume, a aproximação da mulher. Ficam separados pelo tecido e ele ouve o ritmo da respiração, pressente seu coração acelerado. Não sabe que é Miss Nelly. Há um erotismo naquilo – cinema puro. Não me lembro de muitos filmes de Arsène Lupin. Houve o de 1956, de Jacques Becker, com Robert Lamoureux, e o de 1962, de Robert Molinaro, com Jean-Pierre Cassel. As mulheres de Arsène Lupin. Na versão de Becker, ‘As Aventuras de Arsène Lupin’, era a alemã Liselotte Pulver. Na de Molinaro, ‘Arsène Lupin contra Arsène Lupin’, Françoise Dorléac. Jacques Becker foi um dos patronos da nouvelle vague, mas ‘Arsène Lupin’ não dispõe da melhor reputaçãso entre seus filmes. Em ‘Ladrão de Casaca’, Leblanc imagina o confronto entre seu ladrão elefante e Sherlock Holmes, rebatizado como Herlock Sholmes. Ele culmina com a ira do detetive inglês, ao descobrir seu relógio foi surrupiado pelo adversário. Eu, que amo os dois, senti-me homenageado em ‘Ladrão de Casaca’. Creio que existem vestígios de Arsène Lupin em ‘Ladrão de Casaca’, de Alfred Hitchcock, e ‘O Ladrão Aventureiro’, meu filme preferido de Louis Malle, em que um velho Arsène, ou seu congênere, parece sucumbrir ao peso do vazio existencial. Fantasiei ontem, relendo Leblanc. A recusa da mulher parece condenar o herói ao sentimento de fracasso que corroi o herói de Malle, Jean-Paul Belmondo. Pensei tudo isso, mesmo sabendo que o filme de Malle é uma adaptação de Georges Darien. Havia pesquisado certa vez e soube que Darien foi o mestre assumido de Leblanc. Edouard Molinaro! Ele foi integrado, acho que meio à força, na nouvelle vague. ‘Um Broto para o Verão’, com Pascale Petit, é seu filme mais típico do movimento, sobre a juventude de Saint Tropez, por volta de 1960. Mas ‘A Estranha Morte de Belle’, d’après Simenon, com Alexandra Stewart, por melhor que fosse (e era), já deixava claro que Molinaro não era nova onda. Até onde me lembro, ‘Arsène Lupin contra Arsène Lupin’ era legal, meio pasticho, mas teria de rever. Molinaro seguiu uma extensa carreira. Para muita gente, foi só o diretor de ‘A Gaiola das Loucas’ 1 e 2.