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Labirinto do tempo

Luiz Carlos Merten

19 Janeiro 2011 | 10h10

Houve momentos, em Paris, em que eu me senti como um personagem de Jorge Luis Borges, perdido num labirinto de espelhos (e de tempo). Nas três primeiras noites fiquei no Quartier Latin, no Argonautes. Havia ido, logo no primeiro dia, ao chegar, à Livraria Gibert Jeune, esquina da Rue de la Huchette com Boulevard Saint Michel. Entre fascinado e entristecido, descobri esse novo livro sobre Annie Girardot, que ingressou defintivamente no esquecimento do Alzheimer e há três anos, desde 2007, está internada numa clínica. No quarto ao lado, está seu irmão, também vítima do mal. Cruzam-se todos os dias, sem se reconhecer. Que coisa mais terrível! O livro conta a história desse dia, em Montevidéu, em que Annie esqueceu o texto de uma peça e o que foi motivo de constrangimento – a imprensa falou em estresse – na verdade era o começo de uma tragédia. Li, de pé, porque não conseguia parar, os capítulos da ruptura de seu casamento com Renato Salvatori, o Simone de ‘Rocco e Seus Irmãos’. Amaram-se até a morte dele, por cirrose. Ele era infiel, Annie, num determinado momento, dormia com não importa quem, para mostrar que podia ser ‘livre’ como o marido. ‘Qui est tu? Tu me tues, tu me fais du bien.’ Marguerite Duras/Alain Resnais, ‘Hiroshima’. Houve, há dois ou três anos, uma homenagem a Annie Girardot em Paris. Alain Delon, Rocco eterno, que a amou como ninguém no cinema, foi convidado a dizer umas palavras. Ele interrompeu uma viagem – não lembro onde estava – para honrar o compromisso. Lembrou a juventude de ambos, de Claudia (Cardinale), de Renato (Salvatori) em Roma, quando estavam todos sob a asa protetora do grande Visconti. Luchino designou uma assistente de confiança para tomar conta de suas crianças. Terá sido ela a origem da mucama que cuida de Sandra/Claudia Cardinale e de seu irmão (Jean Sorel) em ‘Vagas Estrelas da Ursa’? Confesso que a leitura do livro me perturbou. Saí da livraria, entrei na Rue de la Huchette, a caminho do hotel e, como numa vertigem, era o jovem Delon que estava na minha frente, como se saído do túnel do tempo. Juro! O cara era igualzinho. Jovem, belo e aquele olhar de quem uma vida inteira para devorar. Que que foi aquela madeleine? De repente, estava eu próprio viajando no tempo, na lembrança. No dia seguinte, voltei à mesma livraria e o efeito, de alguma forma, se repetiu. Antes de entrar no prédio, usaram a marquise para formar uma espécie de terraço coberto onde ficam as gôndolas com livros em oferta. Encontrei um que me interessou. Maio de 68 (o ano que não termina nunca) em imagens. Folheei. Entrou aquela imagem de um paralelepípedo – o voto dos revolucionários parisienses. De repente, Louis Garrel. O que o belo Louis estava fazendo em Maio de 68? Não era ele, era seu pai, Philippe Garrel, autor de ‘Amantes Constantes’. Iguaizinhos! Philippe e Zouzou. Será a mãe de Louis? Uma bela mulher e a legenda dizia que, 35 anos depois daquela foto, Philippe Garrel enviou um carta a Zouzou dizendo que, para ele, ela seria sempre ‘la belle insurgée de 68’. Depois disso, só me restavam os momentos de espiritualidade. Fui a Notre Dame, como sempre faço. Segui pelo ‘quai’ à esquerda de Saint Michel, onde existe aquela placa lembrando o jovem resistente que morreu, aos 19 anos, em 1944, sob as balas dos nazistas. “Français, n’oubliez pas!’ A propósito, Kristin Scott Thomas ganhou o Lumière de melhor atriz por ‘Elle s’Appellait Sarah’. É ótima, como sempre, mas eu teria dado o prêmio a Catherine Deneuve, pelo novo François Ozon, ‘Potiche’. De volta a ‘Sarah’, o filme de Gilles-Paquet Brenner estava em cartaz nos cinemas de Paris, mas deixei passar. Talvez já soubesse que ia poder vê-lo no avião, na volta. Havia conversado com Sami Boujdila, à tarde. É ator em ‘Fora da Lei’. Comentamos essa dificuldade que os franceses têm de conviver com o próprio passado – o colaboracionismo, as guerras coloniais. ‘Sarah’ é sobre uma jornalista que escava no passado da família do marido, tentando saber o que houve com os judeus que habitavam o apartamento onde ele (o marido) passou a infância e que foi desocupado às presas. Os antigos inquilinos foram enviados para os campos da morte. Mais um filme sobre o Holocausto! Fico puto quando ouço gente que parece inteligente e até engajada dizer que não aguenta mais. Eu ‘guento’, como se diz. Depende sempre do filme, do autor. A história de ‘Sarah’ se desenrola em dois tempos. No passado, Sarah é uma menina. Quando a polícia francesa invade a casa, ela esconde o irmão num buraco na parede. Fecha-o a chave e diz que não faça nenhum barulho, não importa o que ocorra. Quando descobre que estão indo todos para muito longe, ela percebe o horror do que fez. Tenta salvar o irmão. Foge – sua vida vira uma verdadeira odisseia. Entra em cena Niels Arestrup, o genial velho gângster de ‘O Profeta’. Você pode imaginar o que ocorre, mas a cena em que a garota finalmente consegue abrir aquela porta e descobre o segredo encerrado atrás dela… Como conviver com a dor, com a culpa? Não é ‘A Escolha de Sofia’, mas quase. Eu também sou contra o imperialismo israelense na Cisjordânia, mas quero mais é que o cinema continue me surpreendendo com histórias como a de Sarah.

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