Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Lá vou eu polemizar

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

Lá vou eu polemizar

Luiz Carlos Merten

02 Janeiro 2008 | 12h45

Preparem-se que este post vai ser longo. Lá vou eu enfiar os pés pela mão, mas, enfim, o assunto é bom. Leon Cakoff publicou na Folha um texto contra a reserva de mercado do cinema brasileiro. Disse que é absurdo tentar ampliar o número de dias de exibição obrigatória para filmes brasileiros porque ninguém vai ao cinema obrigado. Existem dois ou três filmes que fazem (fizeram) sucesso e o restante é uma sucessão de salas vazias que oneram os exibidores. Leon Cakoff aproveita e faz campanha contra a meia-entrada, dizendo que ela é um anacronismo, que favorece a fraude – muita gente sem direito termina fazendo sua carteira falsificada – e, no limite, é isso que atira o preço dos ingressos lá em cima, pois o exibidor precisa se precaver, ressarcir etc. Embora seja criador da Mostra Internacional de Cinema São Paulo, Leon, obviamente, não está falando como cinéfilo, mas como comerciante. Afinal, ele não é apenas exibidor, mas também distribuidor (de filmes estrangeiros, do tipo miúra, que, na maioria das vezes, usam a vitrine da Mostra para ganhar visibilidade). Vamos por partes, como diria o estripador. Embora seja patrocinada pela Petrobrás, que tem aquele slogan que você sabe – a cultura brasileira é nossa energia –, a Mostra não tem uma grande tradição de ser uma vitrine do cinema brasileiro. Não é preciso nem comparar com a Première Brasil, no Festival do Rio. O negócio da Mostra sempre foi outro – cinema iraniano, etc e tal. Por exemplo -a Mostra criou um selo para lançamento de livros. Corrijam-me, se estiver errado, mas até hoje não lançou um livro ligado ao cinema brasileiro. OK, a reserva de mercado é odiosa (estou agora pensando na perspectiva do exibidor, na perspectiva de Leon Cakoff). O público não quer ver filmes brasileiros. O público da Mostra, pelo visto, não, já que o evento parece ter formado um público mais sintonizado com Kiarostami, Oliveira e outros grandes do cinema internacional. Mas o público não quer mesmo? No recente Dia do Cinema Brasileiro, um evento formador de público que a rede Cinemark realiza há vários anos, o preferido do público – com mais de 30 mil espectadores num único dia – foi um filme que, provavelmente, não havia feito isso (ou havia feito um pouco mais) ao passar regularmente nas salas. Estou falando de ‘O Homem Que Desafiou o Diabo’, de Moacyr Góes. Esculhambado pela crítica, ‘O Homem’ surpreendeu meio mundo – menos a produtora Lucy Barreto – ao atrair mais espectadores do que ‘Tropa de Elite’, de José Padilha, que foi o filme brasileiro mais badalado de 2007. Muita gente diz que o problema, ou os problemas, do cinema brasileiro são a ausência de salas populares, o alto preço dos ingressos e a falta de visibilidade para o produto nacional. A R$ 2, um monte de gente quis ver o filme de Moacyr Góes com Marcos Palmeira (que, aliás, está ótimo no papel). E aí, como fica, quando um filme que poderia ser citado como exemplo de rejeição do público ao cinema brasileiro é descoberto pelas grandes platéias? Será que não há nisso uma mensagem a ser decifrada? Quanto à meia entrada… Em Porto Alegre, há uma lei municipal segundo a qual o ingresso de estudante vale de segunda a sexta. No sábado e domingo, o estudante não paga meia, mas 70% do valor integral do ingresso (alguma coisa assim), sendo de ressaltar que o valor do ingresso total é inferior ao de São Paulo – R$ 13 contra R$ 18 ou 19. Com todas essas diferenças, o preço do ingresso é caro no Brasil. Xuxa fez uma análise interessante na entrevista que fiz com ela para o ‘Estado’ – seu público diminuiu, mas é um público cujo rendimento não acompanha o aumento do ingresso. O que ela percebe é que público hoje manifesta seu carinho de outras formas, não necessariamente na fila do cinema. Leon Cakoff é sócio de Adhemar Oliveira no Arteplex de Porto. Poderia argumentar que, embora exista esta tarifa diferenciada para estudantes – que não é a mesma do restante do País –, o preço do ingresso não tem a redução que Leon diz que teria, se não houvesse o meio ingresso. Mas também pode ser que seja essa característica local que permita que o Arteplex de Porto tenha tantas promoções para baixar o preço do ingresso (embora eu tenha a impressão que nunca se chegue ao exagero de R$ 2, que a rede Cinemark pratica no dia do cinema brasileiro). Vamos fazer as contas. Uma sala cheia a R$ 2 não é mais interessante do que uma miséria de platéia pagando ingresso cheio? Estou dizendo bobagem? Confesso que posso até ser considerado demagógico, mas sou a favor da meia-entrada. Já perdemos direitos demais no admirável mundo global para abrir mão de mais este. Por princípio, o meio ingresso deve ser um estímulo à formação de platéias, numa época em que o jovem pode baixar o filme na internet em vez de pagar, mesmo barato, para vê-lo no cinema. É claro que alguns filmes brasileiros vão sempre fazer menos público, porque são radicais, experimentais, alternativos, dêem o nome que quiserem. Não podemos exigir de todo mundo a platéia de ‘2 Filhos de Francisco’ ou ‘Se Eu Fosse Você’. ‘Estorvo’ e ‘Veneno na Madrugada’, de Ruy Guerra, ficam na rabeira do gosto do público. Gosto do primeiro, não gosto do segundo, mas estou convencido de que, bem trabalhados, estes filmes poderiam fazer mais espectadores. Tem muito filme estrangeiro com vocação de maldito – ‘Os Amantes Constantes’, de Philippe Garrel – que vira um sucesso para lá de estimável. Se ‘Os Amantes’ consegue, por que não o ‘Estorvo’? Existe um problema de preconceito que a formação de platéias, mais até do que a reserva de mercado, pode ajudar a diminuir, senão resolver. O que não dá é para diminuir a reserva e eliminar o meio ingresso, tudo junto, em nome da modernidade, só para deixar os exibidores felizes.

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Encontrou algum erro? Entre em contato