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Luiz Carlos Merten

12 Fevereiro 2009 | 12h13

BERLIM – Estou tendo um monte de matérias para redigir no ‘Caderno 2’ de amanhã e ainda preciso de tempo para assistir aos filmes que quero ver. É uma matéria de me justificar antecipadamente. Não esperem muitos posts nesta quinta-feira. A manhã começou com ‘La Teta Assustada’, de Claudia Llosa, do Peru, um filme interessante, mas não propriamente bom, no qual a diretora me parece seguir a vertente alegórica de Lucrecia Martel. A teta assustada do título soma-se a outros signos que a diretora – muito bonita, vale dizer – cria para propor uma interpretação de seu país, o Peru. A protagonista é esta garota cuja mãe foi estuprada (por guerrilheiros) e que lhe transmitiu seu medo ‘por la leche’. Claro que isso não tem fundamentação científica nenhuma, mas faz parte de um imaginário indígena que vai sendo transmitido. Outra idéia, mais perturbadora ainda, é o fato de que a moça carrega na vagina uma batata, que introduziu para se preservar de tentativas de estupros, só que a tal batata vai crescendo dentro dela. Poderia ser uma abertura para o realismo fantástico, mas Claudia Llosa, pelo contrário, trabalha quase no registro do documentário. Numa cena particularmente interessante, o tio cava uma tumba para enterrar o cadáver da irmã, mãe da heroína. Está prestes a ocorrer um casamento e ele quer se livrar do cadáver, por causa da festa. A tal ‘sepultura’ vira uma piscina na qual as pessoas celebram a vida e a ‘pileta’ me lembrou, claro, a obsessão de Lucrecia Martel pelas águas paradas, em ‘O Pântano’ e ‘La Niña Santa’, seus melhores filmes. Perguntei a Claudia sobre Lucrecia. Ela admira a diretora argentina e se sentiu lisonjeada pela comparação, mas disse que, em seu caso, a idéia foi mais simples – ela viu num dos locais visitados, quando procurava locações, uma piscina daquelas e achou que seria interessante integrá-la à narrativa. ‘La Teta Assustada’ foi muito aplaudido no fim da sessão, até demais para o meu gosto. Não me admiraria se uma espécie de solidariedade feminina levasse o júri presidido por Tilda Swinton a atribuir algum prêmio importante ao filme peruano. Vamos ver.

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