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Luiz Carlos Merten

19 Maio 2011 | 14h00

CANNES – Hoje deveria ter sido o grande dia de Pedro Almodóvar no 64º festival, mas ele foi ofuscado pelo affair Lars Von Trier. Pedro deve estar ‘al borde de un ataque de nervios’. Eu, de minha parte, estou ne perguntando – que hé hecho para merecer eso? ‘Isso’, é o novo filme do autor espanho, ‘La Piel Que Habito’. Há anos que Almodóvar persegue a Palma. Ainda não vai ser desta vez. E, se for, Robert De Niro terá desmentido o que disse na coletiva do júri, que pretendia premiar filmes e não autores. O próprio Almodóvar admite que ‘Les Yeux sans Visage’ foi uma de suas fontes de inspiração. O cult do francês Georges Franju é sobre um cientista que escalpela mulheres e faz experiências de pele para tentar dar um rosto à filha. A pista é falsa em ‘La Piel Que Habito’. Antonio Banderas também faz experiências de pele. Elas parecem ter ligação com sua ex-mulher, que morreu carbonizada num acidente de carro. Na verdade, a coisa é outra. Almodóvar fez o filme radical sobre abuso sexual e transgenia de almas (os limites do masculino e do feminino). Para ele, ‘La Piel Que Habito’ é sobre sobreviventes. Banderas, na verdade, sequestra e faz uma operação de mudança de sexo no jovem que violou sua filha. Sai o garoto e entra Elena Anaya, a Angélica de Manoel de Oliveira, a quem ele deu o rosto da mulher que morreu. Almodovarianamente, a coisa fica escabrosa. Banderas se apaixona por ‘Vera’, que é como agora ele chama Vicente. No começo de sua carreira, o diretor já fez outros filmes sobre transexuais e mudança de sexo, mas era na fase do escracho. Ele retoma o tema, ou os temas, na nova fase de sua carreira – com estilo. O filme é irregular. Gostei de algumas coisas – o espanto de Vicente olhando-se no espelho, privado do pênis; o beijo de despedida que ele dá no próprio retrato de homem (a cena é linda, e triste); e o final. Almodóvar termina o filme muito bem, vocês vão ver, mas eu, que torcia por ele, não creio mais na Palma. Só para constar, o filme é cheio de referências ao Brasil. Na coletiva, Almodóvar justificou-se dizendo que ama a Bahia, mas também que o Brasil é de ponta no que se refere a cirurgia plástica. Citou Pitanguy e acrescentou que não sabia se está vivo. Citou Caetano – Almodóvar sempre cita Caetano. Disse que as temporadas que passou na Bahia, na casa deles, são momentos inesquecíveis de sua vida. Na trama, Banderas tem um meio/irmão brasileiro. O cara entra em cena vestido de tigre, para realçar o caráter predador da família da história. Um ‘tigrão’, o oposto do terno ‘leãozinho’ do qual ele (o diretor) gosta tanto.