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Luiz Carlos Merten

08 Fevereiro 2007 | 15h13

Berlim – Paguei o maior vexame hoje na abertura do 57.o festival de cinema. Quase morri chorando assistindo a La Mome – La Vie en Rose, o filme frances (de Olivier Dahan) que Dieter Kosslick escolheu para a inauguracao do evento. Estava me achando ridiculo, mas nao conseguia controlar a emocao e as lagrimas. Elas vinham, independentemente da minha vontade. No final da sessao, ainda atordoado e buscando a saida, uma mao me puxou e era a de Renata Almeida. Deus eh pai. Com ela vinha Leon Cakoff e o criador da Mostra Internacional de Sao Paulo me disse que tinha chorado como nunca. Fomos dois, entao. Dois brasileiros chor~oes assistindo ao filme inspirado na vida de Edith Piaf. Pelamor de Deus. Que vida mais intensa, mais infeliz. Que vida maravilhosa! Abandonada pela mae, criada num prostibulo, Edith Piaf saiu das ruas para virar mito, na Franca. A mulher que canta o amor como ninguem fez escolhas amorosas equivocadas, e pagou por elas. Quando encontrou o amor de sua vida, o destino, deem-lhe o nome que quiserem, lhe pregou uma peca e o amado morreu num acidente de aviao. Comecou ai a fase da droga pesada, que a levou ao colapso num show, em Nova York, com o qual se abre o filme. Lagrimas nao sao um bom criterio estetico, nao sao nem mesmo um criterio para se avaliar um filme. Mas eu me lembrei de Van Gogh, nas cartas ao irmao, Theo, quando ele diz, do limite abissal do seu desespero, que gostaria de pintar quadros que consolassem as pessoas. Rainer Maria Rilke tem um poema muito bonito em que ele fala da nossa miseria humana, das miserias das nossas sexualidades e de como nos deveriamos nos unir para carrega-la. Fiquei muito, muito comovido com La Vie en Rose. Espero que nao seja passageiro. Foi uma surpresa, porque o diretor Dahan havia feito antes Rios Vermelhos 2 – Anjos do Apocalipse, que nao eh bom, mas que eu jah vi (nem sei por que) uma dezena de vezes na TV paga. Sempre que estou zapeando na TV e entram as imagens do filme, eu as sigo ateh o final. Tem de haver uma razao, mas nao estou a fim de me psicanalisar, agora. Marion Cotillard eh genial no papel de Piaf. Eh uma mulher elegante, bonita. Eh alta. Fica pequeninha, encurvada. Expoe uma fragilidade que nao possui. Marion agradeceu a Dahan. Disse que lhe havia dado um presente – o papel de sua vida. Mas, como ela tambem disse, os dois nao construiram soh uma exterior para a sua Edith. Deram-lhe um interior, e este eh o mais belo. Quando entra, no fim, Je ne Regrette Rien, fiquei arrepiado. Tudo vale a pena, quando a alma nao eh pequena. Nao nos construimos enquanto pessoas se tivermos medo de quebrar a cara. Tudo isso eh lindo, mas acho que descobri por que Dahan quis contar essa vida tao intensa. Vai alem da propria Edith, uma artista do povo. Numa cena, um soldado faz vigilia na porta da casa para lhe mostrar uma musica. Piaf ouve e diz que eh para ela. Em outra oportunidade, ela estah morrendo, desistiu de tudo e vem o cara (anonimo) que compos Je ne Regrette Rien, que lhe dah uma sobrevida. Vi aih um comentario do diretor sobre o mundo global e a economia de mercado. Vai lah e senta na porta da casa da Madonna, ou de sei lah que idolo pop para mostrar uma musica. Duvido que oucam. Eh mais facil o sujeito levar um pau. Hah uma arte do povo,apaixonada, dolorida, feita de vida e de morte, que Olivier Dahan celebra com sua Piaf. Parei – estou indo ver o novo filme do coreano Park Chan-wook, I`m a Cyborg, But It Is OK. Adoro o diretor de Lady Veangeance. Espero que ele me maravilhe, qu`il m`etonne, como pediam Greta Garbo e Jean Cocteau. Aportuguesando, Marion Cotillard, em La Mome, me `etonou`.