Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘La Marseillaise’

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

‘La Marseillaise’

Luiz Carlos Merten

29 Fevereiro 2008 | 09h07

Jean Renoir era chamado por Truffaut & Cia. de ‘Patron’. Era o grande mestre do cinema francês, aquele cujo significado ‘Cahiers du Cinéma’ e a geração nouvelle vague sempre destacaram e respeitaram. Confesso que tenho um sentimento ambivalente sobre Renoir. Tem algumas coisas dele de que gosto muito (‘Boudu Salvo das Águas’, ‘O Crime de M. Lange’, ‘A Grande Ilusão’ e ‘A Regra do Jogo’) e outras que eu simplesmente não entendo como viraram cults. ‘La Marseillaise’ é de 1937, entre ‘A Grande Ilusão’ e ‘La Bête Humaine’, e creio que é impossível falar sobre o filme sem se referir à época. Renoir integrou-se ao Front Populaire, à união das esquerdas francesas, que estava ruindo em 1937. O PCF defendia que a via para o comunismo na França tinha de passar pelo nacionalismo. O PCF resgatou Joana d’Arc como heroína dos franceses, privilegiava a ‘Marseillaise’ sobre a ‘Internacional’. Como já havia feito um filme-cooperativa com ‘M. Lange’, Renoir voltou a vender cotas, principalmente para a distribuição de ‘La Marseillaise’. Seria um filme do povo, para o povo, literalmente. Uma história populista e meio maniqueísta sobre a Revolução Francesa, mas com cenas empolgantes. Paradoxalmente, não são tanto as cenas de levantes populares, mas aquelas que se passam na Cour de Versailles. A revolução é feita por personagens individualizados – o oposto de Eisenstein, que tratava seus revolucionários como massa humana –, Luís XIV é boa pessoa, só quem não presta mesmo é Maria Antoinette, mas, enfim, era a ‘austríaca’. Muita gente reclama que, justamente naquele ano, em vez de criticar o que estava ocorrendo com a Frente Popular, Renoir tenha se voltado para 1789 para fazer uma releitura tão ‘conciliadora’ da Revolução Francesa. O texto da contracapa do filme o compara às obras-primas sobre este período histórico, especialmente ‘Casanova e a Revolução’, ou ‘La Nuit des Varennes’, de Ettore Scola. Não creio que Renoir dê uma aula de história muito consistente em ‘La Marseillaise’, mas, em compensação, a aula de cinema é notável.