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Luiz Carlos Merten

26 Fevereiro 2008 | 12h31

Você deve se lembrar da cena de Anna Magnani diante do espelho em ‘Belíssima’, de Visconti. Ela faz esta mãe disposta a tudo para transformar a filha numa estrela de cinema. A menina não tem o menor jeito, mas Anna insiste. Na cena do espelho, ela se pergunta o que é representar? Como algumas pessoas possuem essa capacidade de dar vida a outras? E a personagem observa consigo mesma que não tem essa capacidade – uma ironia de Visconti com a atriz que, àquela altura (1951), já virara mito. Anna Magnani trabalhou com grandes diretores do neo-realismo, Rossellini e Visconti (dois filmes com cada). Fez com Renoir o deslumbrante ‘A Carruagem de Ouro’, que acaba de sair em DVD (pela Versátil). Cooptada por Hollywood, ganhou o Oscar de 1955 por ‘A Rosa Tatuada’, interpretando uma personagem de Tennessee Williams, mas seu filme mais interessante em língua inglesa é ‘Fúria da Carne’, que não é exatamente um dos melhores do diretor George Cukor, grande criador de personagens femininas. A passagem por Hollywood pode ter aumentado a popularidade de Anna, mas não foi uma experiência exatamente feliz. De volta à Itália, o jovem Pasolini redivinizou o mito em ‘Mamma Roma’ e, no começo dos anos 70, Federico Fellini lhe prestou aquela homenagem, que virou definitiva. É famosa a cena de ‘Roma’ em que a câmera segue a Magnani, quando ela está entrando em casa e o próprio Fellini a compara a ninguém menos do que à Loba romana (que amamentou Rômulo e Remo na mitologia). Anna se vira para ele e diz ‘Vai dormir, Federico’. É uma das grandes frases do cinema, com ‘Play it again, Sam’ e ‘Estou pronta para o close-up, Mr. De Mille’, vocês sabem de quais filmes. O ciclo do CCSP não traz toda Magnani, mas alguns dos filmes programados – ‘Roma, Cidade Aberta’, ‘Belíssima’, ‘Nós, as Mulheres’, ‘A Carruagem de Ouro’ e ‘Mamma Roma’ – estão entre os melhores da carreira dela. Em compensação, ‘Vidas em Fuga’, em que Anna voltou a viver uma personagem de Tennessee Williams, da peça ‘Orpheus Descending’, contracenando com Marlon Brando sob a direção de Sidney Lumet, é um horror. Lumet, normalmente um bom diretor, não revela a mínima compreensão do texto e, para complicar, não controla a dupla principal, que se entrega a um jogo de cabotinismo autodestruidor. ‘Vidas em Fuga’ teria sido um fecho melancólico de carreira para Anna Magnani. Salvou-a Pasolini. O resto é história. A mostra Anna Magnani começa hoje com ‘Vidas em Fuga’ (16 horas), ‘A Carruagem de Ouro’ (18 horas) e ‘Roma, Cidade Aberta (às 20 horas), devendo prosseguir até domingo. “Mamma TRoma’ passa amanhã, às 16 horas; ‘Belíssima’, também amanhã, às 20 horas; e ‘Teresa Venerdi’ no sábado, às 20 horas.