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‘La Golondrina’

Luiz Carlos Merten

04 Maio 2009 | 04h56

ROMA – Meu terceiro post, o último antes de ir ao Vaticano. Viajei sexta à tarde para chegar na ItáMeu terceiro poostMeulia, via Paris, no sábado à tarde. Quase um dia inteiro, incluindo a diferença de fuso. Mal tive tempo de me recuperar, credenciar e já estava vendo ‘Anjos e Demônios’. Ainda estava sob o efeito do ensaio geral da montagem de ‘Vestido de Noiva’, que tive o privilégio de ver na quinta-feira à noite, aí em São Paulo. Gabriel Vilela ‘adentra’ o universo de Nelson Rodrigues. O barroco mineiro é depurado ao extremo e o universo classe média do dramaturgo é reduzido – reduzido? – à sua ossatura, o melodrama, numa (re)leitura que me deixou doidão. Havia amado a lua negra de ‘Calígula’, montagem anterior de Gabriel Vilela, e a lua vira agora um revestimento negro de acrílico que confere ao palco o formato da portada de um cemitério, o que faz muito sentido, já que a peça, que se desenvolve em vários planos, também é o delírio de uma moribunda, Alaíde, que acaba de ser atropelada. Quando fui entrevistar a Alaíde de Gabriel, Leandra Leal, para uma capa do ‘Caderno 2’, o diretor me liberou para ver a abertura da peça, com ‘La Golondrina’, que havia achado linda, mas podia parecer uma escolha musical um tanto arbitrária. Não me lembro se já conhecia a canção antes daquilo, mas ela faz parte do meu imaginário desde que Sam Peckinpah – o grande! – a utilizou na trilha de ‘Meu Ódio Será Sua Herança’ (The Wild Bunch), de 1968 (que devo ter visto em 1969 ou 70). Gabriel Vilela (tem dois lls em algum lugar, mas nunca lembro onde) abre e fecha ‘Vestido de Noiva’ com a música e o fecho é maravilhoso, explicando sua opção. Sei lá, atrevo-me a provocar. Tenho a impressão de que a crítica especializada não entendeu ‘Calígula’. Não sei se vão entender a lucidez crítica (e teórica, ou conceitual) de ‘Vestido de Noiva’, mas preparem-se. Fui cheio de sede ao poste para ver Leandra Leal e fiquei siderado com a atriz que faz Madame Clecí. Não me lembro o nome, sorry, mas ela é qualquer coisa. Há algo das antigas vedetes do rebolado naquela marafona, ecos de Mara Rúbia e Íris Bruzzi. E ela canta! Marcelo Anthony é outro que se sobressai! Depois de mostrar que grande ator Tiago Lacerda pode ser em ‘Calígula’, o diretor, de novo trabalhando com um ‘global’, mostra que preconceito é coisa de gente burra. Tudo bem que o ator tem de ter alguma coisa para lhe oferecer, mas Gabriel cavouca lá no interior de seus atores e eles explodem no palco. Volto para o Brasil só no final de maio. ‘Vestido de Noiva’ estreia dia 7 ou 8. Quando eu regressar, o espetáculo já estará ‘azeitado’. ‘La Golondrina’ me aguarde!