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Luiz Carlos Merten

18 Abril 2009 | 12h17

Ando há dias com vontade de postar alguma coisa sobre cinema e literatura, até porque a maioria dos filmes que a gente vê são adaptações, só que não de clássicos e os críticos, claro, só se interessam de saber se Orson Welles está traindo Kafka (‘O Processo’) e Cervantes (‘Dom Quixote’), mas quem se interessa por Whit Masterson, autor de ‘Badge of Evil’, que inspirou ‘A Marca da Maldade’, que é, inclusive, maior filme do que os outros dois? Cinema é uma coisa, literatura é outra e Welles é sempre ele, não importa a origem do material. Vejam-se os seus Shakespeares (Falstaff’, o melhor), a sua Isak Dinesen ‘História Imortal’). Essa possível discussão pode estar associada, mas não necessariamente, ao novo livro de Robert Stam, ao qual prometo voltar, mas é principalmente decorrência de um fato que considero da maior relevância. Há um ciclo sobre o cinema da Guerra Civil espanhola rolando no Instituto Cervantes. Tive um choque ao descobrir que exibe hoje ‘L’Espoir’. Fiz o texto que vocês podem ler hoje no ‘Caderno 2’. Em 1937, André Malraux publicou ‘L’Espoir’, sobre a Guerra Civil na Espanha e, dois anos depois, fez o filme de mesmo nome. Não é uma adaptação, embora o quadro seja o mesmo e até o principal episódio – o ataque a um campo clandestino dos franquistas – seja decisivo em ambos os relatos, o literário e o cinematografico. O caso é único. Malraux, um literato, busca uma forma correlata de narrar no cinema, nesta que foi sua única experiência nesse outro meio de expressão. O filme iniciado em 1938 teve de ser interrompido quando Barcelona foi ocupada pelos franquistas e a monarquia triunfou na Espanha, pondo fim ao sonho republicano na Guerra Civil. Malraux teve de ‘inventar’ a ausência de raccords (planos que não conseguiu filmar), o que Godard também fez em ‘Acossado’, em 1959, mas não pelo mesmo motivo. ‘L’Espoir’ deveria ter estreado em Paris, em 1939, mas aí a guerra estourou e o filme só viu a luz em 1945. É cinema de autor no mais alto grau. Tenho até medo de me decepciopnar. Vi ‘L’Espoir’ muito jovem, no Uruguai, e o que me ficou, é o que me lembro sempre, é a cena em que a multidão desce a serra de Teruel com seus mortos e feridos. E uma imagem que parece saída do cinema soviético dos anos de ouro, de Eisenstein ou Pudovkin. Malraux é autor de uma obra literária importante. Fred Znnemann tentou filmar ‘A Condição Humana’, convencido de que é a obra que melhor sintetiza a questão da consciência individual e coletiva no século 20. Malraux foi mais tarde ignorado pela nouvelle vague, talvez – arrisco a interpretação – porque seu comprometimento político não fosse o que mais interessasse a Godard, Truffaut & Cia, todos voltados para o próprio umbigo (e não digo isso pejorativamente). Malraux foi uma figura polêmica. Forjando para si uma biografia de intelectual como homem de ação, ele teria sido sobretudo um mistificador, como sustentavam seus detratores. No fim da vida, ele foi muito contestado, até porque, como ministro de De Gaulle, ligou seu destino ao do General. Em maio de 68, os estudantes que ergueram barricadas em Paris bradavam contra De Gaulle e ele. Malraux seguiu o General, quando ele deixou o poder. A foto que publico hoje no ‘Caderno 2’ é dele no leito de morte, com o retrato de De Gualle na cabeceira. Malraux tem algo de fordiano no meu imaginário, a grandez do derrotado. Em 1996, 20 anos após sua morte, as cinzas foram depostadas no Panteão da França. É um dos raros escritores, acho que com Victor Hugo e algum outro mais, que foram contemplados com a honraria. Não me lembro agora o nome da ex-mulher que ele impedia de escrever. Ela publicou uma série de livros de memórias que foram saudados como obras-primas. Num deles, levanta a hipótese de que Malraux nunca se convenceu – nem convenceu a ela – de que não era gay enrustido e que sua busca por comprometimento e ação, sua necessidade de heroísmo, somente mitigavam seu tormento pelo que não queria aceitar. Sabia do episódio, mas ele me veio quando vi a foto na pasta de Malraux, no arquivo do ‘Estado. Aquele De Gaulle na cabeceira era o quê? Amor platônico? O homem de ação que André Malraux gostaria de ter sido? Vejam ‘L’Espoir’, mas tentem descobrir o horário. Acho que é às 17h15. Depois não digam que perderam por minha causa.