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Cultura » ‘L’ Enfer’

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Luiz Carlos Merten

19 Outubro 2009 | 15h27

Romy Schneider tinha 26 anos e Serge Reggiani, 42, quando fizeram ‘L’Enfer’, O Inferno, de Henri-Georges Clouzot, em 1964. O filme é sobre esse homem maduro que desenvolve um ciúme mórbido e patológico de sua jovem mulher. Clouzot, o mais obsessivo cineasta francês de sua geração – quiçá de todos os tempos –, infernizou tanto a vida do ator que um dia ele abandonou o set e nunca retornou. Conta a lenda que ele acordava Reggiani de madrugada para discutir sutilezas da interpretação e certa feita obrigou o ator a correr um dia inteiro, o que quase o matou, para obter determinado efeito. O cineasta ainda tentou que Jean-Louis Trintignant substituísse Regianni, mas o que ocorreu foi que o próprio Clouzot teve um ataque do coração e o filme foi arquivado. Em 1994, Claude Chabrol comprou os direitos de filmagem do roteiro da mulher de Clouzot` e fez ‘Ciúme – O Inferno do Amor Possessivo’, com François Cluzet e Emmanuelle Béart. Agora, você vai ver na Mostra ‘L’Enfer de Henri Georges Cluzot’, de Serge Bromberg e Roxanne Medrea. Você, cinéfilo, provavelmente já viu outros documentários sobre filmes inacabados que viraram cults, como aquele sobre o ‘Dom Quixote’ de Terry Gilliam, mas ‘L’Enfer’ é especial. Bromberg e Medrea tiveram acesso ao material de Clouzot, que sua viúva, Ignez, mantinha fechado a sete chaves. São cenas de alta voltagem erótica – com uma Romy Schneider que vai fundo no papel; nossa Sissi não dava mole, não – e com um experimentalismo de câmera (ângulos e lentes, principalmente, mas também cor) para expressar a piração do marido que vale resgatar. Para dar sentido ao material, Bromberg e Medrea entrevistam colaboradores de Clouzot , como a diretora assistente Cathérine Allégret, e fazem com que atores (Berenice Bejo e Jacques Gamblin) leiam as partes que não chegaram a ser filmadas do roteiro. Clouzot, mestre do noir, chegou a ser chamado numa certa época de ‘Hitchcock francês’, o que não era. Seu sucesso em salas de arte e ensaio dos EUA alimentou o ressentimento dos jovens turcos da nouvelle vague, mas também é verdade que os dois últimos filmes que concluiu – ‘A Verdade’, com Brigitte Bardot, e ‘A Prisioneira’, com Laurent Terzieff e Elizabeth Wiener – não valiam grande coisa, ficando a léguas de ‘O Corvo’, rodado em plena Ocupação e que é o clássico dos clássicos sobre cartas anônimas. ‘L’Enfer de Clouzot’ passou em Cannes e vai ser um dos destaques da Mostra, com certeza.