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Cultura » Kubrick, 80 anos

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Luiz Carlos Merten

08 Janeiro 2008 | 09h03

Havia acabado de salvar o post sobre Saul Bass quando me lembrei que ele foi consultor visual de Stanley Kubrick em ‘Spartacus’ e justamente hoje começa a retrospectiva de nove filmes com que o Centro Cultural São Paulo lembra os 80 anos de nascimento do grande diretor. É verdade que a comemoração é prematura, pois Kubrick nasceu em 26 de julho de 1928 e, portanto, ainda faltam sete meses para a data. Mas o CCSP está se antecipando e é sempre bom falar de um diretor assim tão grande. Ao longo de quase 50 anos de carreira – fez o primeiro curta, ‘Day of Fight’, em 1951 e o último longa, ‘De Olhos bem Fechados’, em 1999 -, Kubrick dirigiu um total de 15 filmes. Deles, 13 são longas e dois curtas, dos quais o CCSP vai apresentar nove. A programação resgata filmes do começo da carreira do diretor, como ‘A Morte Passou por Perto’ (Killer’s Kiss), um noir que ele próprio considerava um rascunho e, como tal, não era um filme para valer, mas tinha cenas perturbadoras (as dos manequins). Kubrick também não gostava muito de ‘Spartacus’, porque foi chamado pelo ator e produtor Kirk Douglas para substituir o diretor original, Anthony Mann, e não lhe foi permitido reescrever o roteiro de Dalton Trumbo. Kubrick fez sua autocrítica no filme seguinte, ‘Lolita’, que adaptou de Nabokov, na cena em que Quilt (Peter Sellers) junta as duas mãos e diz ‘I’m Spartacus, set me free’ (ou será que ele diz ‘let me free’?). A programação do CCSP de qualquer maneira exibe ‘Glória Feita de Sangue’, ‘Doutor Fantástico’, ‘2001’, ‘Laranja Mecânica’, ‘Barry Lyndon’ e ‘O Iluminado’. Escrevi hoje um texto no Caderno 2, destacando aquilo que não sou o único a dizer – que Kubrick era o homem de cinema em seu estado puro, que acreditava na experimentação e na montagem (embora a fotografia tenha sido seu primeiro amor e, aos 17 anos, ele já era fotógrafo profissional na revista ‘Look’). Kubrick fez filmes de diversos gêneros, situados em diferentes épocas. Em todos eles, manifestou seu pessimismo face à experiência humana – mas ele dizia que era realismo – e explorou um tema. O fracasso da palavra une e dá sentido a toda a obra de Kubrick. Pensem nos discursos de Spartacus e Crassus (aos escravos e aos romanos), no sistema de comunicação do Pentágono que entra em pane e faz renascer a palavra enlouquecida do Dr. Fantástico, em Hal-9000 que ‘enlouquece’ e no escritor Jack Nicholson que, impossibilitado de escrever, libera sua fúria assassina. Staphen King não gostava de ‘O Iluminado’ e fez sua versão do livro. Ele, um autor de segunda – por maior que seja seu sucesso editorial – não entendeu o que Kubrick quis fazer. Toda a obra kubrickiana é uma glacial (cerebral?) exposição do fim do mundo pela dissolução do único elo que organiza e une os homens, e ele é justamente a palavra. Todos os filmes do ciclo – todos, não sei; não tenho ‘Killer’s Kiss’ – são disponíveis em DVD, mas se eu ficasse em São Paulo (viajo amanhã) os veria com todo prazer. Cinema, para mim, é experiência coletiva, no cinema, por mais que a fruição do filme possa ser um prazer individual.