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Luiz Carlos Merten

30 Maio 2011 | 11h54

Olá! Cá  estou eu de volta a São Paulo. Cheguei ontem pela manhã e já tinha 1001 coisas para fazer. Almocei com minha filha e genro – ah, o barreado do Tordesilhas -, fui ao cinema (para variar) e, à noite, Dib Carneiro, João Sampaio e eu jasntamos de novo, mas não para lembrar do menu do Blue Elephant e sim, para comemorar o aniversário de Regina Cavalcanti (acompanhada da filha, a bela, e sexy, Carolina). Como consequência, não postei nada e tenho muita coisa para comentar. Ainda rescaldos de Cannes e da premiação de De Niro, mas principalmente a grande exposição de Stanley Kubrick na Cinemateca Francesa, que valeria a ida a Bercy de joelhos. Cada um faz o caminho de São Tiago do seu coração. O meu bate pelo cinema. A exposição de Kubrick ocupa o quinto e o sétimo andares do prédio. É cronológica. Começa com uma expressiva amostra das fotos dele na revista ‘Look’ e depois segue o roteiro dos filmes. Cada um deles é acom,panhado de texto explicativo – do filme e da fase da vida do autor, mais objetos de cena, pessoais e o melhor de tudo – os excertos que permitem rememorar momentos inesquecíveis da arte kubrickiana. Passei meio olimpicamente pelos primeiros filmes, detendo-me mais nos curtas ‘Day of Fight’ e ‘Flying Padre’. Depois, ‘estacionei’ em ‘Glória Feita de Sangue’, ouvindo várias vezes o depoimento de Steven Spielberg e vendo, sei lá, dez vezes, a cena final do filme, quando a futura mulher de Kubrick, Christiane, canta aquela canção. O que é aquela montagem? Kubrick diziaz que cinema é montagem e só a do desfecho de ‘Paths of Glory’ já valeria como amostra de seu ‘método’. Os homens aplaudem, tiram sarro quando ela começa a cantar, quando ocorre com frequência quando um bando de machos fica diante de uma mulher que lhes é oferecida. E aí a letra da música, a tristeza, a nostalgia de casa etc, começa a bater e o comportamnento da plateia muda. Os marmanhos, os soldados durões, o próprio Dax (Kirk Douglas), se enternecem. Coisa mais linda! Kubrick não tinha muito apreço por ‘Spartacus’, que fez como encomenda do ator e produtor Kirk Douglas, sem direito a ‘final cut’. Em ‘Lolita’, Kubrick tem aquela cena em que Peter Sellers – é ele ou James Mason? É o Sellers – exibe as mãos acorrentadas e diz ‘I’m Spartacus, set me free’. Kubrick era um gênio, mas seu ‘cerebralismo’ se reflete numa característica que poderia, talvez, ser negativa. Exceto em ‘Spartacus’, seu cinema não tem muitas cenas de casal, de amor. As de Kirk Douglas e Jean Simmons, Spartacus e Varínia, são belíssimas exceções. E as de batalha, então. Já havia visto fotos do making of, daqueles milhares de figurantes que Kubrick numerou, para facilitar que sua câmera os identificasse para planos de detalhes que queria incluir na edição final. Não deve ter sido fácil para o jovem diretor (30 anos) administrar o choque de egos. Kirk Douglas infernizava a vida dele bcom suas exigências, Charles Laughton e Laurence Olivier detestavam-se, transferindo para a realidade a oposição de Crassus e Gracus, cada um convencido, de certo, de ser o maior ator do mundo. Martin Scorsese, que também dá seu depoimento, admira-se – que extraordinária autoconfiança tinha Kubrick para não se intimidar diante de (such) monstros sagrados? A exposição segue mostrando o único Oscar de Kubrick – pelos efeitos de ‘2001’, academia de merda – e o Leão de carreira que ele ganhou no Festrival de Veneza. Uma vitrine exibe o vestidinho azul das duas garotas que assombram o pequeno Danny em ‘O Iluminado’, naquele corredor, e a cena fica passando e passando, interninável, naqueles monitores. Mas o melhor ainda está por vir. No fim da exposição, na sala de projeções, um documentário inventaria as trilhas de Kubrick, o uso que ele fez de música erudita em seus clássicos. Lygeti, morto há, sei lá, 2 anos, lembra as circunstâncias da criação e o uso que Kubrick fez de sua música em ‘2001’ e ‘De Olhos bem Fechados’. Não queria ir embora. Por mim, estaria lá até agora, vendo e revendo aquelas cenas, aqueles bilhetes, memorandos e roteiros anotados. Simultaneamente, você pode assistir, também na Cinemateca, ao documentário sobre ‘Laranja Mecânica’ – ‘Il Était une Fois Orange Mécanique’ -, que passou em Cannes. Espero ter tempo e espaço para fazer, no ‘Caderno 2’, a grande matéria que essa exposição, verdadeiro evento, merece. A Mostra ou o Festival do Rio deveriam trazê-la ao Brasil. E a Warner, que está lançando em DVD a versão restaurada de ‘Laranja Mecânica’, poderia ser parceira, como foi da apresentação do filme em Cannes e está sendo do evento nas Cinemateca de Paris. Cinéfilo que se preze, vai amar.