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Luiz Carlos Merten

27 Abril 2009 | 15h28

Transcrevo agora a entrebvista que fiz com Kore-eda em Cannes, em 2004. Ela foi publicada no ‘Caderno 2’ em 17 de maio daquele ano.

CANNES – Conhecido do público brasileiro por dois grandes filmes, Maborosi e Depois da Vida, o diretor japonês Kore-Eda Hirokazu acrescenta mais um belíssimo trabalho à sua carreira. Nobody Knows, exibido na primeira noite
da competição, baseia-se num caso real ocorrido no Japão, em 1988, sobre quatro crianças abandonadas pela mãe e que se degradam no interior de um apartamento minúsculo, até a morte de uma delas.

Estado – O que o levou a querer fazer este filme tão belo e tão triste? Não digo isto como uma limitação. A beleza de Nobody Knows (Ninguém Sabe) vem muito dessa tristeza.
Kore-Eda Hirokazu – A história sempre mexeu comigo porque via nela uma forma de refletir sobre as transformações ocorridas no Japão, nas últimas décadas. Yasujiro Ozu fez muitos filmes sobre a família tradicional japonesa, com
seus papéis bem definidos. Eu queria mostrar uma degradação daqueles valores. E, sim, o filme é triste, não teria como evitá-lo, mas espero que
não seja só isto. Espero ter passado também os momentos de alegria e solidariedade compartilhados por aquelas crianças.

Estado – Em Maborosi, havia, por assim dizer, um mistério da luz. Aqui, sua preocupação maior é pelo tempo.
Kore-Eda – Sem dúvida, pois se trata de uma história sobre crianças que crescem. A despeito de todas as dificuldades, elas crescem. Em Maborosi, a luz muitas vezes expressava as perdas daquelas mulheres. Em Nobody Knows, a
história continua sendo de perdas – e eu tenho a impressão de que todo o meu cinema trata disso –, mas agora eu precisava do tempo, para mostrar o efeito do abandono da mãe sobre as crianças. Filmei ao longo de um ano e filmei
cronologicamente, acompanhando as estações. O motivo é óbvio. Não poderia ser diferente, posto que as crianças estavam crescendo, mas a minha
experiência como documentarista foi muito importante no processo. Foi a primeira vez que filmei uma ficção deste jeito e foi apaixonante saber que nada poderia ser refeito nem recuperado. O filme, embora de ficção, teria de
construir-se no momento, como um documentário.

Estado – Qual é a sua expectativa aqui em Cannes?
Kore-Eda – Não vou dizer que não tenho nenhuma porque seria mentira, mas é
preciso ver as coisas além do próprio umbigo. O festival tem na competição filmes de ficção, documentários e até uma ficção. É tudo muito rico. Vejo a competição sem estresse porque,
recentemente, comecei a produzir filmes de estreantes e um deles, Wild Berries, ganhou mais prêmios do que jamais sonhei para mim. É preciso reconhecer que há muita gente talentosa no mundo.