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Luiz Carlos Merten

27 Abril 2009 | 15h23

Adriano tem toda razão. Errei o ano de produção de ‘Ninguém Pode Saber’ e até o nome do diretor, mas o espírito do texto sobre Kore-eda (desisto do primeiro nome porque ia errar de novo) se mantém. Entrevistei-o em Cannes, em 2004, quando ele apresentava o filme em questão. Aliás, vou fazer uma coisa que não costumo, neste e no post seguinte. Vou transcrever os textos que escrevi para o Estado, lá de Cannes. Vamos por partes. O primeiro foi escrito no calor da hora, após a exibuição de ‘Ninguém Pode Saber’. Vamos lá. Só como curiosidade, a data de publicação foi 14 de maio de 2004.

CANNES – Após a decepção proporcionada pelo novo filme de Pedro Almodóvar, La Mala Educación – que tanto poderia se chamar Pecado na Sacristia como
Tudo Sobre o Meu Padre –, o festival já produziu seu primeiro impacto na quarta à noite com o primeiro filme da competição. Nobody Knows (Ninguém Sabe) traz a assinatura de Kore-Eda Hirokazu, o grande diretor japonês de
Maborosi e Depois da Vida. Havia um mistério da luz em Maborosi, há agora um mistério do tempo em Nobody Knows e, neste sentido, o filme aproxima-se de Depois da Vida, com aquela intrigante metáfora do cinema, a partir da história dos mortos que precisam escolher um momento de suas vidas para carregar por toda a eternidade.

Kore-Eda Hirokazu baseia-se agora num caso ocorrido no Japão em 1988, o dos
“quatro abandonados de Nishi-Sugamo”, como ficou conhecido. Quatro crianças são abandonadas pela mãe e, para não serem separadas, elas fingem que a vida continua no pequeno apartamento para onde se mudou a família. As crianças são filhas de diferentes pais. O affair real durou seis meses e a verdade só veio à tona porque uma das crianças morreu. Kore-Eda estende o tempo para um ano, marcando o ritmo das estações.

Nobody Knows desoncertou o público de Cannes porque nada fica muito claro. A mãe é irresponsável, os diferentes pais não se sentem responsáveis pelas crianças. Elas só têm a elas mesmas e tentam esconder dos vizinhos o drama
que vivem. São crianças que não estudam, não tem existência legal. Kore-Eda amparou-se em pesquisas. Havia 533 crianças de rua em Tóquio, com idades entre 7 e 14 anos, em 1987. Este número baixou para 302 em 2000, o que pode
ser considerado irrelevante em comparação com o contingente de crianças de rua no Brasil. Uma só criança na rua, diz o diretor humanista, deveria ser motivo de escândalo, em qualquer sociedade responsável.

O filme trata da degradação física das crianças. Elas vão ficando cada vez mais magras e sujas no minúsculo apartamento, que também vira um chiqueiro. Nobody Knows desenvolve-se por meio de uma narrativa descontínua. Mal comparando, a descontinuidade narrativa ainda era rara no cinema, em 1967, quando Glauber Rocha fez Terra em Transe, que integra a programação em
homenagem ao Brasil, de 16 a 20 de maio. A descontinuidade de Terra em Transe era política – a expressão de um continente, a América Latina, em transe. A descontinuidade virou agora o feijão com arroz dos festivais, mas o filme de Kore-Eda é forte (e as crianças são todas lindas e talentosas). O diretor perseguiu o projeto por mais de 15 anos. Queria mostrar o inferno vivido por essas crianças para discutir temas como a família e a responsabilidade social. Mas nunca quis ver o inferno de fora. Seu desafio, ele diz, foi descobrir, de dentro, a riqueza da relação entre irmãos. Havia momentos de
compreensão, tristeza, medo, alegria e esperança. Que melhor história para se testar os limites e a complexidade do próprio cinema como investigação das almas (e da realidade)? Kore-eda é um grande diretor e ‘Nobody Knows outro grande filme que ele nos oferece.