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Luiz Carlos Merten

04 Outubro 2008 | 12h38

RIO – Estou de volta ao Festival do Rio, depois de um dias em Belo Horizonte, onde fui convidado para apresentar a master class de Masahiro Kobayashi na mostra de cinema japonês que lá se realiza, em comemoração ao centenário da imigração japonesa. Conheci um de meus leitores fiéis aqui no blog, o Quintão, que foi, na realidade, quem me formalizou o convite. Já havia conversado com o Kobayashi aqui no Rio, justamente por conta do que seria este encontro em Minas. Além da master class, propriamente dita, que foi legal, claro, mas poderia ter sido melhor – o próprio Kobayashi antecipou a abertura das perguntas para o público e, a partir daí, ficou tudo meio dispersivo, com as pessoas perguntando aleatoriamente, sem que antes tivéssemos estabelecido um mínimo denominador comum -, tivemos um encontro cinematográfico/musical, pois o diretor, que também é cantor e compositor, fez um breve (mas belo) show com um ex-integrante do ex-Clube da Esquina, que o Quintão vai entrar aqui para esclarecer o nome. Os dois se encontraram, sentiram a musicalidade um do outro e a proposta da apresentação conjunta surgiu espontaneamente. Gostei demais. A seguir, meio que divido em tópicos algumas coisas que disse o Kobayashi, diretor de ‘Desonra’ e ‘Renascimento’, entre outros filmes que o transaformaram em figura assídua nos grandes festivais, especialmente Cannes.
1. Perguntei-lhe por que fazia estes filmes densos mas com poucos personagens? São sempre dois, três, no máximo quatro personagens, num processo em que o íntimo e o privado se completam – às vezes contrapõem – e sempre com poucos diálogos e uma concentração da câmera nos atores. A resposta – por causa de dinheiro. Kobayashi, que não tem nenhuma relação de parentesco com o grande Masaki, meu autor favorito do cinema japonês (mais que Kurosawa, Ozu e Mizoguchi), explicou que ele próprio produz seus filmes, com recursos mínimos, e isso o limitou. Ele nunca buscou o cinema/coral. Mas ele também, percebeu que este cinema concentracionário, até um pouco repetitivo (no bom sentido) é o mais adequado para que se expresse como autor. É o que o move. Quando cria personagens, Masahiro Kobayashi os cria para dizer alguma coisa sobre o momento que está vivendo.
2. No começo dos anos 80, ele pegou o dinheiro que havia juntado trabalhando – nos Correios – e viajou para a França movido pelo desejo de encontrar François Truffaut, de quem queria ser assistente. A universalidade do cinema: ao assistir a ‘Os Incompreendidos’, Kobayashi sentiu como se aquela história fosse a dele. Apesar das diferenças entre França e Japão, a carência de Jean-Pierre Léaud era a que sentia. Por isso queria trabalhar com Truffaut-san, mas o diretor, tendo acabado ‘A Mulher do Lado’, viajara para os EUA. Durante seis meses, o jovem Kobayashi viajou pela França pesquisando os locais onde o grande diretor havia feito seus filmes. No final, mesmo sem cruzar com Truffaut, ele se definiu como cineasta de vocação e coração. E nunca mais quis fazer outra coisa.
3. Kobayashi não gostava dos filmes de Kurosawa. Puro conflito familiar e geracional – seu pai amava ‘Rashomon’, ‘Os Sete Samurais’ etc, e isso era motivo suficiente para que ele, querendo se afirmar, fosse contra os gostos do velho. Não me lembro agora o filme, mas o pai dele viu determinado Kurosawa e não gostou. Kobayashi foi ver o filme e amou. A partir daí, inverteram-se as posições. Ele passou a amar Kurosawa e agora o reconhece como um modelo do humanismo que quer desenvolver no cinema, mesmo que dificilmente venha a realizar aqueles amplos (e caros) afrescos do ‘Imperador’ (como Akira era chamado).
4. De quais cineastas Kobayashi gosta? Dos irmãos Dardenne, por exemplo, mas também de diretores mais jovens, como o taiwanês Tsai Ming-liang, o chinês Jia Zhang-ke e o coreano Kim Ki-duk. Lembram-se de ‘Desonra’? A personagem prestava serviço humanitário no Iraque quando foi feita refém. Libertada, voltou ao seu país e sofreu todo tipo de discriminação por parte de uma sociedade que nunca aceitou que ela fosse ajudar os outros lá fora, enquanto havia tanta gente para auxiliar no próprio Japão. A história é real e Tsai, Jia ou Kim poderiam te-la filmado. Teriam feito filmes estilisticamente diferentes, mas o tema de Kobayashi – o Kobayashinho, para diferençar de Masaki – não é estranho ao universo de nenhum deles.

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