Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Kobayashi!

Cultura

Luiz Carlos Merten

28 Julho 2011 | 10h00

Não tenho muito tempo para postar agora, pois estou saindo para uma pequena viagem, uma visita a set. Mas não posso deixar de registrar. A Cult Classics está lançando ‘Harakiri’, do meu amado Masaki Kobayashi. Mesmo reconhecendo a importância de Ozu, Mizoguchi, Mikio Naruse e Akira Kurosawa, tenho essa preferência por Kobayashi, que é meu autor japonês preferido. Exacerbo e considero ‘Rebelião’ o maior filme feito no Japão, com aquele confronto final entre os personagens de Toshiro Mifune e Tatsuya Nakadai que me deixa maluco. O que é o cinema? É aquilo. ‘Harakiri’ dividiu o prêmio do júri com ‘Um Dia, Um Gato’, de Vojcech Jasny, no Festival de Cannes de 1963, em que a Palma de Ouro foi atribuída a Luchino Visconti, por ‘O Leopardo’. Richard Harris foi o melhor ator, por ’This Sporting Life’, de Lindsay Anderson, e Marina Vlady, a melhor atriz, por ‘Ape Regina’, de Marco Ferreri. Houve até um tal prêmio ‘Gary Cooper’, que foi para ‘O Sol É para Todos’, de Robert Mulligan. Tatsuya Nakadai faz o samurai que pede licença a um suserano para cometer o suicídio ritual em seu jardim interno. Mas, antes de matar, ele conta a história desse outro samurai, um jovem, forçado, neste mesmo jardim, a se matar usando uma espada de bambu. Kobayashi, que já demolira o militarismo e o sistema de classes da sociedade japonesa pré-2ª Guerra no monumental ‘Guerra e Humanidade’, investe aqui contra o bushido, o código de honra dos samurais. Ele voltaria ao tema em ‘Rebelião’, que é ainda melhor, mas ‘Harakiri’ é deslumbrante por seu rigor cênico e intensidade dramática. E Nakadai era (é) um ator de gênio. Alter ego de Kobayashi, ele virou o intérprete de Kurosawa na fase final do grande diretor, após seu rompimento com Toshiro Mifune. Em Cannes, em maio, assisti ao novo Takashi Miike, ‘Ichimei’, que não é outra coisa senão um remake – em 3-D – de ‘Harakiri’. Em Veneza, no ano passado, o diretor já mostrara ‘13 Assassinos’, outro remake, de ‘Os Sete Samurais’, de Kurosawa. Entrevistei Takashi Miike. Ele pretende revisitar outros clássicos japoneses? Por que não ‘Rebelião’? Miike me disse que não se atreveria. Ou seja, até ele reconheceu seu limites, ou a grandiosidade de ‘Rebelião’. ‘Ichimei’ não é tão bom quanto ‘Harakiri’, mas gostei de ver o filme. Estou me guardando para rever no fim de semana o original de Kobayashi. De todos os grandes diretores do Japão, nenhum alcançou a dimensão trágica de Kobayashi. O fracasso comercial de ‘Kwaidan, as Quatro Faces do Medo’, de 1964, fez dele um pária. O filme marcou a primeira experiência do diretor com a cor. Foi também seu primeiro e único filme fantástico. As imagens são deslumbrantes, mas o público não se interessou, como também rejeitou o ‘Dodeskaden’ de Kurosawa, que teve de esperar mais alguns anos para fazer ‘Dersu Uzala’ na Sibéria. Kurosawa era muito orgulhoso para aceitar a ajuda de Mifune, com quem rompera. Não sei se Mifune lhe estendeu a mão, porque também era orgulhoso. Mas, se não fosse a ajuda de Mifune, Kobayashi não teria feito ‘Rebelião’ em 1967. Tudo isso é história, mas ‘Harakiri’ é um grande filme que eu só espero que esteja saindo numa cópia decente. As imagens são magníficas.