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Kobayashi, o grande

Luiz Carlos Merten

17 Agosto 2009 | 12h32

PORTO ALEGRE – Alguém (quem foi?) pegou carona num post antigo, do começo dos ano passado, sobre ‘O Homem Mau Dorme Bem’, de Akira Kurosawa, para reclamar que não se fala muito aqui no Brasil sobre outro grande do cinema japonês, Masaki Kobayashi. O leitor em questão acrescentou seu post para falar sobre ‘Kwaidan’, de 1964,lançado como ‘As Quatro Faces do Medo’ (e disponível em DVD). Acho um deslumbramento o uso da cor em ‘Kwaidan’ e as quatro histórias fantásticas -mais do que de terror… – são fascinantes,principalmente duas, as que me ficaram gravadas na memória. Uma é do músico que tatua o corpo para se proteger dos demônios, mas deixa as orelhas descobertas e eles as arrancam.A outra é desse homem salvo por essa mulher misteriosa que se revela a rainha das neves, que um dia reaparece para cobrar a vida que lhe devolveu. Admiro Kurosawa, Ozu e Mizoguchi,mas Kobayashi é meu dirertor japonês favorito. Dedico-lhe um capítulo do meu livro ‘Cinema – Entre a Realidade e o Artifício’,onde chego a afirmar que considero ‘Rebelião’, de 1967,o maior filme feito em qualquer época no Japão. Tenho certeza de que já falei muito sobre ‘Rebelião’ aqui no blog,inclusive pedindo que me ajudassem a identificar o curador que recusou ‘Joi Uchi’, título original, na seleção oficial do Festival de Veneza. “Rebelião’ retoma e amplia a vertente de sabre no cinema de Kobayashi, após aquele monumento que é ‘Guerra e Humanidade’, ou ‘A Condição Humana’, seguindo por cerca de dez horas e três filmes (‘Não Há Maior Amor’, ‘Estrada para a Eternidade’ e ‘A Prece de Um Soldado’) a trajetória de Kaji, Tatsuya Nakadai, na 2ª Grande Guerra. ‘Rebelião’ culmina naquele duelo de espada entre Tatsuya Nakadai e Toshiro Mifune, em que o primeiro mostra sua superioridade técnica e depois recua, porque, se vencer, impedirá que o outro denuncie as atrocidades de seu chefe e isso vai contra o código de honra do samurai digno que é. Esse samurai é uma fantasia do grande diretor,um realista tão crítico que sua obra é toda ela uma desmistificação de gêneros e histórias da crônica japonesa),mas até Kobayashi se rende ao Tatsuya Nakadai de ‘Joi Uchi’,um ‘mocinho’ da mesma estirpe de Shane (Alan Ladd) em ‘Os Brutos Também Amam’, de George Stevens. possuo boa parte da obra de Kobayashi lançada em DVD.No Brasil,acho que só saiu ‘As Quatro Faces’. Importados, comprei’Guerra e Humanidade’ (The Human Condition), ‘Harakiri’ e ‘Rebelião’, batizado lá fora como ‘Samurai Rebellion’. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard conta que Kobayashi estudou filosofia e ingressou no cinema pela mão de Keisoke Kinoshita, mas rompeu com seu primeiro mestre e sua obra adquiriu uma conotação trágica. Sou louco pelo cinema dele. Podemos sim,aliás, devemos falar sobre Kobayashi, o grande.

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