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Cultura » King Vidor e a árvore do conhecimento

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Luiz Carlos Merten

15 Janeiro 2007 | 12h42

Acabo de perder um post inteiro, mas vou reescrevê-lo. Já contei que comprei, em Buenos Aires, a autobiografia de King Vidor, intitulada A Tree Is a Tree, Uma Árvore É Uma Árvore. Sabia da existência do livro e sempre fui intrigado pelo seu título, querendo saber o que significa. A poucos diretores a definição de ‘Rei’ se aplica tanto. No começo de sua carreira, nos anos 30, com filmes como Aleluia, The Crowd, The Big Parade e O Pão Nosso de Cada Dia, o rei Vidor fez filmes que não apenas se tornaram clássicos como estavam adiante de sua época, anunciando novas tendências que o cinema, leia-se Hollywood, só iria avalizar, ou assimilar, nas décadas seguintes. Tudo isso é verdade, mas os meus filmes preferidos de King Vidor são os que ele fez com Jennifer Jones, nos anos 40 e 50 – o superwestern Duelo ao Sol, que agora me dou conta de que esqueci na lista que publiquei ontem, e Ruby Gentry. Duelo ao Sol é o que se pode chamar de western impuro – um suntuoso melodrama ambientado entre tiroteios e explosões de gado. Ruby é de uma intensidade erótica excepcional, transmitindo o desejo como raras produções de Hollywood se atreviam a mostrar, na época. Como Ruby e Pearl Chávez, a heroína de Duelo ao Sol, Jennifer prossegue com as personagens protofeministas interpretadas por Katharine Hepburn e antecipa a passagem da estrela hollywoodiana da condição de mito (Garbo) à de mulher, que prossegue com Marilyn Monroe e se consolida com Jane Fonda, por volta de 1970. Seria interessante analisar o papel do produtor David Selznick, marido de Jennifer e que também fez …E o Vento Levou, lançando um modelo de heroína que já era moderna, avant la lettre, Scarlet O’Hara. O curioso, nisso tudo, é que a ‘erótica’ Jennifer ganhou o Oscar por um filme religioso – A Canção de Bernardete! De volta a King Vidor, ele faz revelações preciosas. Após o fracasso de seu último filme, Salomão e a Rainha de Sabá, que credita à morte, em plena filmagem, de Tyrone Power (substituído por Yul Brynner, o que foi um desastre), Vidor viveu mais 20 anos afastado do cinema. Quer dizer, afastado em termos. Realizou filmes domésticos, de curta e média metragem que foram os mais livres que fez, desde os anos 30, e percorreu os EUA (e vários países)recebendo homenagens, participando do júri de grandes festivais ou ministrando palestras em universidades. Em contato com os jovens, King Vidor admite que adquiriu plena consciência do significado de sua obra. Seus filmes tratam do embate entre o desejo e a cultura, que engloba conhecimento e repressão. Seus três grandes temas, ele diz, foram a guerra, o aço e o trigo. Gosto demais de Guerra e Paz, que revi outro dia na TV paga, a versão dos anos 50, com Audrey Hepburn. King Vidor filtra Tolstoi por Stendhal (A Cartuxa de Parma) na cena memorável da batalha de Borodino, vista pelos olhos de Pierre (Henry Fonda). Tolstoi foi um de seus amores. No fim da vida, ele virou pintor (e fez um filme sobre a forma como o cinema influencia a pintura, o que vai contra a corrente; em geral os diretores mostram como a pintura influencia o cinema). Um de seus quadros preferidos era uma natureza morta com uma maçã (a tentação, o desejo) sobre o pano de fundo de uma estante com as lombadas dos livros que mais o influenciaram – Guerra e Paz, a Bíblia, A República (de Platão). Outro quadro na verdade é um mural, que ele pintou numa parede do rancho em que viveu seus últimos anos. Representa a árvore do conhecimento e em seus galhos estão as mais diferentes frutas, o que termina por explicar o título do autobiografia, que tanto me intrigava. Retenho uma última história, porquie me parece muito atual. Em 1934, King Vidor fez O Pão Nosso de Cada Dia, sobre um jovem casal e sua luta pela sobrevivência durante a depressão econômica que atingiu os EUA, nos anos 30. Todos os estúdios recusaram o projeto e, quando ele recebeu de Charles Chaplin a garantia de distribuição (via Unted Artists), Vidor foi aos bancos, em busca de financiamento. Todos exigiam que ele cortasse uma cena-chave, aquela em que o banco executa a hipoteca e o casal perde sua pequena fazenda. Vidor preferiu vender seus bens a transigir com sua criação. Mais de 70 asnos depois, esta é a típica história que você ouve de diretores brasileiros que submetem seus projetos ás leis de patrocínio e ouvem das diretorias de Marketing que não há interesse de suas empresas em ligar o nome a determinados projetos. Penso, entre outros, em Laís Bodanzky (O Bicho de Sete Cabeças) e Heitor Dhalia (O Cheiro da Ralo), que não teriam feito filmes viscerais, se a negativa das empresas os tivesse feito desistir. Francamente, o que mais fiquei com vontade, depois de ler o livro, foi de rever os grandes filmes de King Vidor. Quem sabe alguma empresa de DVD não os resgata? Quem sabe uma editora não publica o livro, tão valioso pelo que revela sobre o autor e os bastidores de Hollywood?