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Luiz Carlos Merten

30 Janeiro 2007 | 16h10

Não me oponho a discutir questões de mercado, mas não quero ficar prisioneiro delas, e no meu blog, ainda por cima. Até reclamei, em Tiradentes, que, apesar do título da mesa de que participei – a questão da representatividade no cinema brasileiro da retomada –, a gente tinha discutido mais a forma de financiamento do que o possível condicionamento do produto que ela pode determinar. Ou seja, a estética. Quero falar de filmes. Na madrugada de domingo, quando cheguei em casa depois de assistir ao decepcionante O Último Rei da Escócia na pré-estréia do Arteplex, encontrei minha filha acordada. Lúcia havia acabado de assistir a King Kong, que passou na TV paga. Perguntei se havia gostado? Ela me disse que achava bom, mas não gostava. Por que, quis saber? Porque é muito triste, me disse a Lúcia, acrescentando que nunca viu nada mais triste do que a história de amor do rei Kong por aquela mulher. Compartilho da opinião de minha filha. Acho que, de certa maneira, Peter Jackson assumiu uma tarefa impossível. Depois de vencer o desafio de adaptar a saga de O Senhor dos Anéis, fazer um King Kong do melhor que o original de 1933 era algo, para mim, impensável, porque aquele filme, tão primitivo como era, mexe com medos e sonhos profundos e, com as chaves da psicanálise, adquire uma dimensão mítica muito grande. Mas o Jackson ousou, e não apenas para atualizar os efeitos especiais, que, no filme dele, são melhores, claro. A humanidade que ele imprime ao seu Kong, a expressão dos olhos do gorila gigante, são coisas com que Merian C. Cooper e Ernest B. Shoedsack nem poderiam imaginar (bem, talvez imaginassem), há 74 anos. É uma linda história de amor – improvável, fantástica e, acima de tudo, triste. Um amor condenado, o de Kong pela deslumbrante Naomi Watts, mas eu acho que isso é só parte da ambição do projeto de Peter Jackson. A outra, e talvez seja a dominante, é discutir a indústria do cinema e fazer, quem sabe, uma autocrítica, por meio de Carl Denham, o produtor e diretor interpretado por Jack Black, que passa por cima de tudo e todos e desconhece limites (até, ou principalmente, os da ética) movido não mais por um sonho, mas por uma obsessão.