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Luiz Carlos Merten

21 Dezembro 2008 | 13h00

PORTO ALEGRE – Pela procedência, vocês já viram onde estou. Vim passar o Natal em Porto, aproveitando minha folga de fim de ano. Tive ontem um dia agitado, para variar. Para um safenado recente, ando muito sacudido. Não vou entrar em detalhes, mas costumo presentear uns DVDs – afinal recebo tantos – para as pessoas que trabalham comigo. Fiz a seleção, mais de cem DVDs. Tinha também todas aquelas corridinhas anteriores às viagens. Uma ida à oficina de consertos do shopping, outra à lavanderia. Pedi o almoço em casa, sentei-me à espera da comida, que não ia demorar muito e o que fiz? Zapeei. Bati no ‘Kill Bill’, de Quentin Tarantino, que não via há séculos. Não ando com muita paciência para o cara, quer dizer, para o filme de estrada dele, cujo título esqueço, mas o ‘Kill Bill’… Lamentei não ter ligado antes. A cena era a do confronto entre Daryl Hannah e Uma Thurman no trailer, que conclui com a porta aberta e a Uma saindo para o deserto, como Hohn Wayne no desfecho de ‘Rastros de Ódio’, de John Ford. Vocês sabem que eu não resisto a uma cena de artes marciais. Esbaldar o ego no escurinho do cinema é comigo mesmo, com o perdão dos coleguinhas – eu, hein? – que só querem exercitar a massa cinzenta do cérebro. Não sei se vocês se lembram com exatidão da cena. O trailer é exíguo e a pancadaria é precedida pelas ofensas verbais que Daryl e Uma trocam. Uma chama a outra de vaca e promete fazê-la em pedaços. Daryl usa tapa-olho. Antes da luta, propriamente dita, exste a tensão, quando a câmera avança sobre cada uma e esquadrinha seu rosto. O de Daryl, deformado pelo ódio. O de Uma, duro, e você vê, pelo movimento das mandíbulas, que ela está rangendo os dentes. Quando as espadas se cruzam, os primeiros movimentos parecem dar vantagem a Daryl, mas aí Uma dá aquela golpe e arranca o único olho dela. Daryl cai em meio a um monte de imprecações. Tenta acertar o vazio. Uma Thurman esmaga com o pé descalço o olho que caiu no chão e, no canto da tela, até a cobra recua, com um silvado. A partir daí, Daryl desaparece. Ouve-se só a sua voz, ainda gritando de ódio, até que ela grita ‘Sheet!’ (M…) e você sabe que morreu, provavelmente picada pela cobra. Uma, como John Wayne, sai para o deserto. A partir daí, começa o capítulo final. A ‘noiva’ pára no bordel, para conseguir de Don Estebán – e ela põe ênfase no Bán – onde está Bill. Na casa do principal oponente, ela encontra a filha. Mesmo gostando de ‘Kill Bill’ 1 e 2, sempre achou o confronto com Bill meio anticlimático no 2, mas ontem captei a sutileza. Em “Cães de Aluguel’ e ‘Tempo de Violência’ (Pulp Fiction), Tarantino já revelara o excepcional dialoguista que é. O diálogo de Uma Thurman com Estebán é primoroso. Não existem significados ocultos. A palavra vale exatamente o que dizem, ele, velho, tentando ser sedutor, mas tratando-a como a uma de suas p…, ela desprezando Estebán, mas necessitando ele e, por isso, sendo elogiosamente cínica. O diálogo com Bill e a filha, sim, é pleno de significados ocultos. E a ação, enfim. Terrminei de ver o ‘Kill Bill 2’, almocei e fiquei um tempão parado, pensando na vida e no cinema. Tem gente que só consegue fazer isso, pensar na vida e no cinema, assistindo, sei lá, a um filme de Bressane ou de Philippe Garrel. Que peninha! Corri para o aeroporto. Todos os vôos estavam saindo no horário, ou com pequenos atrasos, de Congonhas. O meu atrasou duas horas. Não reclamei, e não mais porque ainda estivesse sob o efeito Tarantino. Havia começado a a ler ‘A Margem Imóvel do Rio’, o novo Luiz Antônio Assis Brasil, um escritor gaúcho que me apaixona. Cheguei em Poprto tarde, jantei e estava na hora de dormir. Hoje, mandei matérias para o jornal. Só agora vou tomar pé de Porto, mas uma coisa eu digo – está um calor danado, típico do verão do Sul. 30 graus à sombra, sem brisa do mar. Estava com saudade de Porto Alegre. Desde o final de Gramado, em agosto, que não passava por aqui (e naquela época foi rapidinho). Preciso reencontrar a minha cidade.