Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » Kikitos

Cultura

Luiz Carlos Merten

17 Agosto 2008 | 00h56

GRAMADO – Terminou há pouco a cerimônia de premiação do 36º Festival de Cinema Brasileiro e Latino. Até agora estou tentando entender os motivos – ou critérios – que levaram o júri latino a superpremiar o filme argentino ‘Por Sus Proprios Ojos’, em detrimento de outros concorrentes que me pareciam incomparavelmente mais fortes – o colombiano ‘Perro Come Perro’ e o mexicano (um filme iraniano feito no México) ‘Cocochi’. Ambos receberam seus prêmios, mas nada que se compare à concentração de troféus do júri oficial, que coincidiu com a escolha do júri popular. Também não entendi como o júri brasileiro, integrado por três diretores a quem respeito e admiro – Ana Carolina, Roberto Gervitz e Lina Chamie -, conseguiu fazer um rateio que atribuiu prêmios errados aos filmes certos, ou vice-versa. Deixando de lado os grandes esquecidos e derrotados – ‘Netto e o Domador de Cavalos’, único filme gaúcho numa seleção que incluía mais cinco (cinco!) cariocas, e ‘Pachamama’, o belo documentário de Eryk Rocha -, foram acertadas as escolhas de melhor ator (Aaniel de OLiveira, por ‘A Festa da Menina Morta’) e atriz (Leandra Leal, por ‘Nome Próprio’), bem como a atribuição de um prêmio de qualidade para os três atores de ‘Juventude’ (Paulo José, Aderbal Freire Filho e o próprio diretor Domingos Oliveira). Matheus Nachtergaele deve ter sentido o drama quando foi anunciado o primeiro prêmio da noite na competição brasileira – o especial do júri para o filme dele. ‘A Menina’ ainda ganhou o prêmio de fotografia (para Lula Carvalho), totalmente merecido e é interessante que esse tenha sido o único filme captado em película numa seleção que privilegiou o digital (como captação de imagem e projeção). Dada a comoção causada pelo filme de Domingos, não seria surpresa se ‘Juventude’ levasse o Kikito de melhor filme, mas o de direção? Há muito mais ousadia – e mise-en-scène – nas direções de Murilo Salles, que ganhou o Kikito de melhor filme, com ‘Nome Próprio’, e Matheus Nachtergaele, que, com muito mais propriedade, poderia reinvindicar o prêmio pela elaborada realização da ‘Menina’. Enfim, se o objetivo era ratear entre os preferidos do júri, tenho cá comigo que foram cometidas injustiças. Entendo – posso até estar errado – que Matheus, estreante talentoso, recebeu um chega-pra-lá, tipo assim ‘Olhaí, guri, espera tua vez’. Não foi uma premiação calamitosa (absolutamente), mas o conceito do júri me pareceu meio atravessado. Murilo, de qualquer maneira, estava eufórico. Duas vezes vencedor do Kikito de direção – por ‘Faca de Dois Gumes’ e ‘Como Nascem os Anjos’ -, ele nunca havia recebido o de melhor filme. Murilo só espera que esses prêmios para ele e sua maravilhosa atriz ajudem a dar uma sobrevida a ‘Nome Próprio’, já lançado no Rio e em São Paulo. E aí, vocês agora vão querer ver? Para encerrar – já é quase 1 da manhã e eu viajo às 6 para Porto Alegre -, Matheus foi maravilhoso no palco. Para lembrar Dorival Caymmi, que morreu ontem, ele cantou ‘Maracangalha’. O próprio Caymmi teria se sensibilizado com a homenagem.