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Luiz Carlos Merten

28 Agosto 2008 | 16h47

Carlos Pereira tem me pedido insistentemente que fale sobre o ‘Decálogo’, de Kieslowski, e acho que só agora estou descobrindo por que. O ‘Decálogo’ foi lançado em DVD pela Silver Screen, ex-Continental, que, por sinal, está sendo processada pela Versátil, que detinha os direitos para o Brasil e foi atropelada pelo lançamento pirateado, pelo menos foi o que me informaram. Se não for verdade, Eduardo Beu pode recorrer e apresentar sua versão, que eu publico. Kieslowski morreu em 1996 prematuramente, aos 55 anos. Lembro-me de conversar muito sobre ele com Walter Hugo Khouri, que amava ‘A Dupla Vida de Véronique’ (e a atriz do filme, Irène Jacob). Em 1995/96, eu embarquei na canoa do Tarantino, depois que ‘Pulp Fiction’ arrebentou no Festival de Cannes e o Khouri me dizia que era furada. Era só uma fase, que ia passar. Quem ia ficar era o Kieslowski, com suas séries de filmes – o ‘Decálogo’ e a Trilogia das Cores (‘A Liberdade É Azul’, ‘A Igualdade É Branca’ e ‘A Fraternidade é Vermelha’). Vi o ‘Decálogo’ na TV, quando o filme foi exibido no Brasil, pela TV Cultura. Dois de seus episódios, ‘Não Amarás’ e ‘Não Matarás’, foram desenvolvidos como longas e me encantam, mas o ‘meu’ Kieslowski é o de ‘A Igualdade É Azul’, Bleu, a que assisti em Veneza, quando o filme foi apresentado no festival (e ganhou o Leão de Ouro). Lembro-me de haver entrevistado Kieslowski e Juliette Binoche – minha primeira entrevista com ambos. Com Juliette, falei mais vezes, inclusive em Paris, num encontro do cinema francês. Com Kiewslowski, mais uma, em Cannes, quando ele, já de saco cheio, lançou o ‘Rouge’. Em Veneza, devo ter sido dos primeiros jornalistas a ouvir dele e a publicar a declaração de que ia largar o cinema, após a trilogia das cores. Marin Karmitz, que era seu produtor francês, estava convencendo o grande diretor a voltar quando ele morreu, deixando os roteiros de ‘Céu’ (ou ‘Paraíso’), ‘Inferno’ e ‘Purgatório’, que foram sendo assumidos por outros diretores. Contra todas as opiniões, gosto mais do ‘Paraíso’, de Tom Tykwer, do que do ‘Inferno’, de Danis Tanovic, mas isso pode ser uma idiossincrasia minha. Sobre Kieslowski, propriamente dito, o que mais posso dizer para o Carlos Pereira? O ‘Decálogo’ foi o ‘Crime e Castigo’ de Kieslowski, assim como a Trilogia das Cores foi a sua reflexão sobre o fim das utopias. A liberdade absoluta é impossível porque o homem nasceu para viver em sociedade/comunidade e a sua liberdade é, necessariamente, limitada pelo outro (que tanta gente, países também, tenta ignorar). ‘A Fraternidade É Vermelha’ marca, para mim, o limite dessa parábola do impossível que Kieslowski vinha perseguindo (e por isso acho que ele quis parar com o cinema). Com a ameaça do juízo final, Kieslowski dizia que é preciso parar de julgar, porque vivemos num mundo em que as pessoas – nós, a espécie humana – estamos separados. Como autor, seu projeto consistia em filmar o que não pode ser filmado, em dizer o que as palavras não contam. Uma frase dele eu acho, em especial, maravilhosa. ‘A luz’, dizia Kieslowski, ‘faz parte do que chamo de ‘plástica do filme’ e, para mim, é tão importante quanto a música ou o trabalho dos atores.’ A música dos filmes de Kieslowski era do Preisner e a de ‘A Liberdade É Azul’ é uma das coisas mais belas quie já ouvi no cinema. Os atores, principalmente as atrizes, são gloriosos. Irène, Juliette, Julie Delpy, aquela Grazyna não-sei-das-quantas de ‘Não Amarás’… O cinema de Kieslowski justifica que se faça a pé, e de joelhos, o caminho de São Tiago. Satisfeito, Carlos?