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Luiz Carlos Merten

14 Fevereiro 2011 | 21h59

BERLIM – Cinco filmes, coletivas, textos para redigir para o Caderno 2. O dia nao foi fácil. Comecou com o russo V Sobbotu, ou An Ordinary Saturday. O sábado é tudo, menos comum. Neste dia particular ocorreu o incidente na usina de Chernobyl. O reator fundiu, logo a contaminacao terá se espalhado, mas as autoridades soviéticas guardam segredo. Um jovem militante do Partido Comunisdta tenta fugir com a namorada, mas ela quebra o salto do sapato – como Catherine Deneuve no final de Indochina, de Régis Wargnier – e eles perdem o trem que poderia levá-los daquele inferno. O rapaz termina reencontrando os integrantes de sua antiga banda. Vao tocar num casamento. Afloram velhos ressentimentos, tosdo mumndo bebe até cair. A camera de Alexander Mindadze nao para um instante. Mexe-se o tempo todo, mais bebada do que os personagens. O mundo, porém, está imóvel. A metáfora, sobre o fim do mundo, o fim do comunismo, é clara. Outro tipo de imobilismoparalisa os personagens de Bela Tarr em O Cavalo de Turim. Logo no comeco, um letreiro informa deste dia em 1889 em que o filósofo Niesztche viu um homem maltratar seu cavalo em Turim. Ele se abracou ao animal, impedindo o dono de contzinuar a massacrá-lo. Levado para casa, Niesztche ficou dois dias incomunicável, disse “Mae, acabou” e mergulhou na loucura. O que ocorreu com ele todo mundo sabe, mas e o cavalo? Segue-se a história do cavalo. Nao propriamente uma história. Seis dias decupados no estilo lento e característico do diretor húngaro. O dono do animal e sua filha num inverno inclemente. Os mesmos gestos, repetidos com precisao. Raras quebras – um homem que vem pedir grapa, ciganos que invadem a propriedade. Discute-se Deus nas entrelinhas. Mais do que bíblico, o clima é apocalíptico. O poco de água seca, a luz se extingue. Pai e filho terminam imóveis, exangues. É possível admirar o radicalismo estético de Bela Tarr, mas o que o filme traz de novo, para o próprio autor? Brinquei com os amigosd brasileiros no fim da sessao – Alessandro Giannini, Ana Paula Souza, Mariana Morisawa, André Miranda, Orlando Margarido. A Mostra Aurora, de Tiradentes, estava melhor, mais ousada. Houve também o Coriolanus de Ralph Fiennes. Surpreendi-me ao gostar. O texto de Shakespeare é transposto para a atualidade, um lugar chamado Roma vira um enclasve nos Balcas. Coriolanus passa de herói patrício a inimigo da plebe por sua arrogancia. Banido pelo povo, ele bane o povo de sua vida e se une aos inimigos de Roma para sitiar o império. Volumnia, sua mae, atuira-se aos pés do filho clamando por Roma. O desfecho é sangrento. A transposicao é forte, mesmo que nem sempre convincente, as cenas de batalha sao vigorosas – Ralph Fiennes ve a peca, portanto o filme, como jogo de um antagonismo entre Coriolano e…, entre Gerard Butler e ele. Para o diretor, o confronto evoca os samurais e eu confesso que pensei em Toshiro Mifune e Tatasuya Nakadai em Rebeliao, de Masaki Kobayashi. O melhor do filme é o elenco, leia-se Vanessa Resgrave, excepcional como essa mae patrícia que identifica família e pátria. Aos 74 anos, Vanessa está rija. Deu um show na entrevista. Gerard Butler contou como foi entrar na producao. Seus dois primeiros dias de filmagem foram os da cena em que Volumnia pede clemencia ao filho. Ele só tem uma fala – tres palavras – no final. O jogo verbal é todo entre Vanessa e Fiennes. Butler disse que foi a maior aula de interpretacao que teve na vida. A filha de Vanessa estava no set. Ele lhe perguntou de onde sua mae tira tanta intensdidade. A resposta -nem ela sabe. Vou passar pelo frances Les Femmes du Sixième Étage, de Philippe Le Guay. Muito melhor, uma das melhores coisas que vi aqui, foi Khodorkovsky, de Cyrill Teschi, sobre o bilionário russo que foi para a cadeia, condenado de roubar dinheiro do país. O filme faz a radiografia do poder de Putin. Mal comparando, as acusacoes contra Khordorovsky pasrecem frágeis como aquelas de que Mahmoud Ahmadinejad lancou mao para prender Jafar Panahi. O mesmo efeito intimidador sobre a oposicao. A Rússia é assustadora sob o comunismo como sob Putin. Pior ainda – um país de mafiosos, remember My Joy. O festival tem altos e baixos, mas Berlim confirma sua vocacao política. Temos tido o que pensar, aqui.

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