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Luiz Carlos Merten

29 Novembro 2010 | 16h57

Já enterrei hoje Leslie Nielsen e Mauro Alice, este último com atraso. Pensei que ia poder dar uma folga na minha pá de coveiro, mas eis que a Eliana Souza, pauteiro do ‘Caderno 2’, me informa – morreu Irvin Kershner. Foi neste final de semana, em Los Angeles, aos 87 anos. O anúncio foi feito somente agora, ainda há pouco, por seu agente. Irvin Kershner! Há coisa de dois ou três anos, por aí, lamentei não ter ido ao Festival de Manaus, quando ele foi homenageado. Esse festival nunca me atraiu, honestamente. Sempre me pareceu mais passeio do que outra coisa qualquer, mas por Kershner… Sempre tive o maior entusiasmo por ele, nas duas fases de sua carreira. Seus blockbusters incluem ‘O Império Contra-Ataca’, que, isoladamente, sempre me pareceu o melhor filme de toda a série ‘Star Wars’, de George Lucas, e também ‘Nunca Mais Outra Vez’, Never Say Never again, o melhor filme de James Bond fora da série oficial (e com um Sean Connery esplêndido). Estou falando em melhor isso e aquilo, mas Kershner teve uma fase difícil, nos anos 1970, quando aceitou fazer, para TV, a toque de caixa, ‘Resgate Fantástico’, sobre o episódio dos reféns de Uganda. Naquele momento, parecia que a gente ia se despedir do outro Kershner, o que, nos anos 1960, fez uma série de três filmes que compõem uma espécie de trilogia informal. ‘Sublime Loucura’ põe Sean Connery – seu primeiro filme com o diretor e um dos primeiros pós-Bond – na pele do poeta Samson Shillitoe. A comédia de 1966, também com Joanne Woodward e Jean Seberg, é uma joia de humor e invenção, filtrando na tela todo o clima de inconformismo e contestação dos anos 1960. Vieram depois ‘O Magnífico Farsante’., outra pérola, com George C. Scott, e o melhor de todos, ‘O Amor É Tudo’, Loving, de 1970, com George Segal e Eva Marie Saint, sobre um publicitário que pira – é ele contra o mundo, como Samson, em ‘Sublime Loucura’. Vou dizer uma coisa para mim muito séria. Vocês sabem que amo Elia Kazan, mas ‘O Amor É Tudo’ é aquilo que Kazan talvez tivesse feito em ‘Movidos pelo Ódio’ (The Arrangement), se a Warner não lhe tivesse atado as mãos, como produtor e diretor que era. Fui conferir o que Jean Tulard escreve no ‘Dicionário de Cinema’ e ele é injusto com Kershner. Credita o sucesso de ‘Os Olhos de Laura Mars’ ao roteiro de John Carpenter e diz que ‘Nunca Mais’ é tributário mais do mito de 007 do que do talento do realizador. Além de achar as duas afirmações absurdas em si mesmas, lamento que Tulard ignore o restante da obra de Kershner, sendo que o restante contém simplesmente o melhor que ele fez. Parei um pouco a redação do post, devaneando sobre os filmes de Kershner. Lembrei-me de que Maurício Gomes Leite, o grande crítico mineiro, diretor de ‘Vida Provisória’, amava ‘Sublime Loucura’. Maurício era godardiano de carteirinha, como Tiago Mata Machado, o autor de ‘Os Residentes’, que vi no sábado em Brasília. A mineirada é f… E pretensiosos, no bom sentido. Comecei Com Kershner, mudei o rumo, volto a Kershner. Ele foi daqueles diretores que os críticos hesitam em chamar de ‘autores’. Há mais coerência nas suas diferentes fases do que na obra de muito cineasta de invenção. Eu amava Irvin Kershner.