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Luiz Carlos Merten

04 Julho 2007 | 15h14

Confesso que não entendo bem a associação que o Pedro Almeida faz de Kubrick com Ken Russell, mas vou pegar carona no comentário dele. A maioria de vocês deve ser muito jovem para ter assistido aos filmes de Ken Russell na estréia, mas eu vi, ou pelo menos comecei a ver a partir de O Cérebro de Um Bilhão de Dólares, que foi a terceira aventura de Harry Palmer, agente criado pelo escritor Len Deighton e que, interpretado por Michael Caine, virou alternativa (menos fantasiosa) a 007, nos anos 60. Acho que Jean Tulard não exagera quando diz que Ken Russell, sem dúvida, foi (é?) a mais forte personalidade do cinema inglês. Tem gente que jura que Russell realizou suas obras-primas na TV, mais exatamente, na BBC – A Dança dos Sete Véus, sobre Strauss, e O Inferno de Dante, dedicado a Rossetti. Seu primeiro grande filme foi a adaptação de Mulheres Apaixonadas e eu guardo até hoje a imagem transgressora de Glenda Jackson dançando para aquele boi, no campo. Com Delírio de Amor, sobre Tchaikovski, ele iniciou a sua série de biografias no cinema. O personagem era sob medida para o diretor, atraído por seres que criam um mundo de sonhos que se destrói (e os destrói…) em contato com a realidade. O erotismo de Mulheres, o homossexualismo reprimido de Delírio levaram a Os Demônios, que Ken Russell adaptou de Aldous Huxley, sobre o mesmo episódio das freiras possessas de Loudun que inspirou Madre Joana dos Anjos, de Jerzy Kawalerowicz. Os Demônios era da Warner. Foi proibido pela censura do regime militar e, quando estreou, foi cortado. Russell fez depois todos aqueles filmes sobre Mahler, Liszt, Henri Gaudier, Rodolfo Valentino. Fez Tommy, ópera-rock cujo tema é nada menos que a decadência da civilização (em 1975! Alguém acha que a coisa melhorou desde então?). Naquela altura, já era o enfant terrible. Filmava/provocava/desconcertava sem nenhuma preocupação com a exatidão histórica nem com o realismo. Era um cinema que jorrava como o próprio fluxo do inconsciente. E aí, nunca entendi como nem por que, a fonte secou. Ele ainda fez alguns filmes que não obtiveram repercussão. Confesso que, de todos os filmes que Ken Russell fez nos últimos anos, só teria curiosidade de assistir à Queda da Casa de Usher, que Rubens Ewald Filho, em seu Dicionário de Cineastas, lista como último filme dele, em 2002. Quinze anos antes, em 1987, Russell havia feito Gothic, lembrando a noite de 1816 em que uma aposta entre Mary Shelley e o Dr. Polidori levou à criação de dois clássicos da literatura fantástica – Frankenstein e O Vampiro. Era excessivo e era fascinante. Essa atração (dele e minha) pelo gótico deve explicar para vocês porque me interessaria conhecer a releitura que Russell fez do original de Poe que inspirou Roger Corman (em 1960) e Jean Epstein (em 1928).