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Cultura » Kazan, por Scorsese

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Luiz Carlos Merten

09 Junho 2007 | 11h17

Escrevi há pouco o nome de Elia Kazan, a propósito de O Preço de Um Homem, de Anthony Mann – as paixões humanas que se recusam a ser represadas -, e me lembrei de uma coisa que ainda não postei. Nem me lembro mais se o Scorsese, em Cannes, falou de algum projeto novo de ficção. Sei que ele tem mais um com o Leonardo Di Caprio, mas fiquei mais interessado nos seus documentários. A viagem do Scorsese pelo cinema italiano é maravilhosa. É verdade que ele não fala muito de Visconti, mas seus comentários são sempre densos, profundos e vão ao cerne de cada filme. O que ele mostra de (e diz sobre) Umberto D me tocou muito. Revi o filme e é uma coisa de louco. Pois bem – Scorsese disse em Cannes, durante sua aula de cinema, que trabalha atualmente em dois documentários, um sobre o Rolling Stones – que ele deve estar fazendo para meus colegas Jotabê Medeiros e Regina Cavalcanti – e outro, o que mais me interessa, sobre Kazan. É um dos grandes diretores do cinema, mas Kazan estragou sua reputação ao colaborar com o macarthismo, no começo dos anos 50. Já havia recebido seu primeiro Oscar (por Gentleman’s Agreement/A Luz É para Todos, acho que em 1947) e fez Uma Rua Chamada Pecado, que foi como se chamou, no Brasil, Um Bonde Chamado Desejo, adaptado de Tennessee Williams, com Vivien Leigh e Marlon Brando em atuações antológicas (como Blanche DuBois e Kowalski). Kazan, que era trotskista, colaborou com McCarthy em protesto contra o stalinismo que se instalara no aparelho do Partido Comunista americano. Como ele contou a Michel Ciment, no livro com a entrevista que lhe deu, não se orgulhava do que havia feito. Disse até qual gostaria que fosse o epitáfio em seu túmulo – ‘Não fez tudo o que gostaria, não gostava de tudo o que fez; assim foi sua vida’. O que mais me impressionava em Kazan, e que ele discute no livro do Ciment, era seu ódio, pelos outros e por si mesmo. Foram necessários anos de psicanálise e uma mulher, a atriz e diretora Barbara Loden, para que ele se adoçasse. Gosto de um desabafo do diretor – quando todo mundo passou a desprezá-lo, a dizer que era um vendido, ele jurou que ia fazer filmes ainda mais críticos e questionadores do sonho americano. Disse e cumpriu. Sei lá – imagino que cada tenha seu Kazan preferido. O meu é Clamor do Sexo, com Natalie Wood e Warren Beatty. Em Cannes, este ano, o festival contou, por meio de uma exposição de fotos ao longo da Croisette, a história de seus 60 anos. Parei várias vezes para olhar as fotos de Natalie e Beatty, que viveram um romance fora da tela. Os dois participaram do festival. Como eram lindos, meu Deus! E o filme é maravilhoso. A epígrafe com o poema do Blake, que diz que nada restitui o esplendor na relva, o ardor da nossa juventude, é de uma serenidade assombrosa. Acho aquele reencontro da Natalie e do Beatty na cena final um monumento de cinema, e de vida. Imagino que já tenha ocorrido isso com todo mundo. Alguém a quem você ama, cuja ruptura foi difícil, e um dia você reencontra, olha, diz duas ou três palavras e se despede. Genial! Tudo passa sobre a terra, como diz José de Alencar no desfecho de Iracema, a última frase do romance. Quando Hollywood concedeu um Oscar espedcial para Kazan, houve um movimento na academia para boicotá-lo. Me lembro, entre muitos outros, de Nick Nolte sentado, emburrado, sem aplaudir, quando Kazan pisou no palco do Kodak Theatre. Ele foi um figura polêmica, com certeza. Foi um grande artista, também. Não fez tudo o que gostaria, não gostava de tudo o que fez, mas dos filmes – de muitos – podia gostar. Sonho com o documentário que Scorsese poderá fazer. Espero que seja grande como o próprio Kazan.

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