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Luiz Carlos Merten

01 Janeiro 2010 | 11h20

Tenho na minha casa edições dos anos 1970 dos livros com as entrevistas que o crítico Michel Ciment fez com Elia Kazan e Joseph Losey. Ciment conversa com os dois, analisa a vida e a obra de cada um. Especialmente o livro sobre Kazan é minha paixão. No ano passado – tão distante! – havia comprado em Paris, acho que na volta de Cannes, a edição definitiva dessas entrevistas, agora reunidas num único livro da Editora Stock, ‘Kazan Losey’. Como outros livros que comprei na mesma época – o de Patrick Brion sobre John Huston -, terminei por me esquecer de ‘Kazan Losey’, que foi sendo soterrado sob outros livros e DVDs. No outro dia, fui fazer uma limpeza, tentando começar a organizar a bagunça. O livro de Michel Ciment veio para o primeiro plano, mas só hoje li a apresentação do autor, em que ele explica porque reuniu os dois no mesmo (re)lançamento. Falando nos destinos paralelos de Elia Kazan e Joseph Losey, Ciment assinala que eles oferecem convergências tão fortes quanto divergências. A lógica subterrânea que une os dois foi se tornando cada vez mais evidente aos seus olhos.
Ambos nasceram no mesmo ano, 1909 – nem me havia dado conta de que 2009 marcou o centenário dos dois -, mas em meios distintos. Um veio da minoria grega na Turquia, do mundo dos fabricantes de tapetes, o outro de uma família protestante e burguesa de Wisconsin, o que, para Ciment, ajuda a entender as escolhas que fizeram durante o macarthismo. Kazan, movido pelo desejo de integração social, colaborou com as listas negras. Losey fez daquele o momento de afirmação em sua vida dos valores da Constituição dos EUA. Kazan ficou estigmatizado como colaborador, Losey partiu para o exílio. Ambos estudaram em prestigiadas universidades da Costa Leste, Yale e Harvard, inscreveram-se no Partido Comunista, iniciaram-se como diretores de teatro nos anos 1930. Kazan foi ator, interpretando ‘Waiting for Lefty’, de Clifford Odets, no Group Theatre, em 1935. Naquele ano, Losey dirigiu a montagem da peça em Moscou.
Os dois trabalharam no rádio antes de ser chamados a Hollywood, nos anos 1940. Os primeiros filmes de um e outro foram marcados pelo engajamento político e social, com origem no New Deal do presidente Roosevelt. Ambos trabalharam com Tennessee Williams e Harold Pinter, com Sam Spiegel e Jeanne Moreau. Kazan assinou seu último grande êxito de crítica com ‘America, America’ (Terra do Sonho Distante) em 1963. No ano seguinte, começou a consagração internacional de Losey com ‘O Criado’. Nunca se encontraram, mas suas vidas se cruzaram em 1972, quando Losey usou seu poder de veto, como presidente do júri no Festival de Cannes, para impedir que seus colegas jurados premiassem, como queriam, ‘Os Visitantes’, talvez o mais atípico dos filmes de Kazan, escrito por seu filho, Chris. Achei que vocês gostariam de ler sso.

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