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Luiz Carlos Merten

12 Outubro 2010 | 22h14

Deixem-me corrigir rápido. O erro está no post intitulado ‘A Mostra Confirma’, quando falo de Michel Ciment, crítico francês – integrante do comitê de redação de ‘Positif’, a revista rival de ‘Cahiers’ – que será jurado da Mostra. Disse que ele reuniu num só volume os livros que escreveu sobre Elia Kazan e John Huston. Não! É sobre Kazan e Joseph Losey, chama-se ‘Kazan Losey Édition Définitive’ e a editora é a Stock. Cheguei em casa depois de conseguir comprar o DVD de ‘Wanda’ e, antes mesmo de ver, fui conferir no livro o que Kazan fala de sua ex-mulher. Não me lembrava direito, mas antes de ‘Wanda’, vou falar de Barbara Loden, vista por Elia Kazan. Por causa de Marlon Brando e James Dean, Ciment diz que a reputação de Kazan era como diretor de atores, mas ele também descobriu muitas atrizes e suas personagens femininas têm em comum a ternura. Olhem o que diz Kazan – ‘Trabalho sempre melhor com as atrizes. E creio que sua observação sobre a ternura é justa porque ela faz parte das exualidade. Amo a feminilidade, amo as mulheres de personalidade. Não gosto dessas garotas frágeis de 30 anos. Minha primeira mulher era forte, a segunda (Barbara Loden) também é. Admiro numa mulher o que é primitivo, elementar, o que poderia fazê-la matar, se alguém entrasse em seu lar, ameaçando suas crianças. Amo mulheres como Lee Remick, Jo Van Fleet e Barbara Loden. Sempre admirei minhas atrizes. São maravilhosas. Para mim, as mulheres sempre foram um ideal, um pouco por causa de minha mãe. São sólidas, indestrutíveis, justas. Seu papel é civilizador, de encorajamento. Com pouquíssimas exceções, os homens foram sempre menos importantes para mim.’ E Kazan diz mais, uma coisa que parece impensável, considerando-se o grande diretor que ele era e o fato de Barbara ter feito só um filme, e foi ‘Wanda’. Mas ouçam – ‘Devo muito a Barbara, no sentido de que a experiência que ela havia feito com ‘Wanda’ me influenciou bastante. Foi ela quem me apresentou Nick Proferes, seu diretor de fotografia. Vi Barbara filmar ‘Wanda’ e tentei ser útil, de alguma forma. Era um pouco seu segundo assistente, dava conselhos sobre iluminação, palpitei no roteiro, ajudei a encontrar financiamento. Cuidava das crianças, para que ela pudesse filmar despreocupada. Estava sempre próximo e pude acompanhar a maravilhosa experiência que foi a filmagem de ‘Wanda’. Para mim, foi uma lição. As produções em Hollywoopd ficaram gigantescas, monstruosas. Foi por isso que decidi fazer ‘Os Visitantes’ com uma equipe pequena, em 16 mm. Éramos apenas três pessoas. Foi a prova, para mim, de que uma produção pode ser simples e cooperativa.’ Kazan segue falando da experiência de ‘Os Visitantes’, com roteiro de seu filho Nicholas. Influenciado por Baebara Loden, que também filmou ‘Wanda’ em 16 mm, ele conta que nunca foi mais livre, como artista, do que ao fazer este pequeno filme de US$ 135 mil, enquanto ‘The Arrangement’, Movidos pelo Ódio, custou US$ 6,8 milhões num grande estúdio (a Warner) e na tela não deve haver mais do que US$ 1,5 milhão. Há quase 40 anos, Hollywood já inflacionava custos para que todo mundo pudesse ganhar, independentemente de o filme fazer sucesso, ou não.

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