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Luiz Carlos Merten

31 Maio 2012 | 19h31

PARIS – Voltei ontem a noite depois de entrevistar o pessoal de `Prometheus’ em Londres. Foram boas entrevistas com Ridley Scott, Michael Fassbender, Noomi Rapace, Charlize Theron, Guy Pearce etc. Foram todos tao persuasivos e inteligentes que gostaria, sinceramente, de ter apreciado mais o filme. ‘Prometheus’ estreia na semana que vem no Brasil aproveitando o feriado. Vou poder voltar ao assunto porque Ridley, Michael e Noomi me disseram coisas realmente interessantes. O filme entrou ontem, na Franca, e tambem ontem comecou no Reflets Medicis, um cineminha que adoro do Quatier Latin, uma programacao especial que recupera, para os cinefilos parisienses, os filmes da mostra Un Certain Regard, de Cannes. Havia perdido o Beasts of the Southern Wild, que ganhou a Camera d’Or do juri presidido por Cacá Diegues (e que era integrado por Karim Ainouz). Gostei demais do filme e confesso que teria balancado meu gosto, se tivesse integrado a competicao. Assisti ao filme com Orlando Margarido e depois fomos jantar com Neusa Barbosa, o Carlos Eduardo (de Londrina) e a mulher dele, a Ana, que estava na Inglaterra (Londres e Edimburgo), durante a realizacao do festival. O jantar foi num indiano bem gostoso da Ópera. Boas comidas, um pouco spicy, bons vinhos, bons papos. Havia almocado num grego do Quartier Latin, desfrutando o prazer que a solidao oferece. Nao sei de voces, mas tenho necessidade de ficar sozinho, as vezes, e Paris eh uma das cidades que mais curto. Lembro-me sempre da musica – ‘Mesmo estando so eu me sinto feliz/cantando a cancao que embala Paris…’ Foi um hit por voltas de 1960, quando muitos, a maioria de voces, nem era nascida.  Naquela epoca Paris me parecia o lugar mais distante do mundo. Depois, virou uma especie de segunda casa. Como vou muito aos mesmos lugares, as pessoas me conhecem. `M. Merten est arriveh!` Bom solitario, melhor, ontem, em grupo. Antes de Beasts, fui ver Os Dias Sao Numerados, ou Contados, de Elio Petri, um filme que sempre esteve no meu imaginario – e que eu relaciono muito a Colateral, de Michael Mann. Puta filme, com uma interpretacao genial de Salvo Randone, como aquele velho obcecado pela morte. Nao deu para nao relacionar o Amour, de Michael Haneke, mas o Petri, para o meu gosto, eh melhor, ainda maid duro, menos sentimental, evitando todo patetismo. Depois, sim, veio Beasts. O mundo visto pelos olhos de uma garota que habita com o pai uma regiao pantanosa e que a chuva torna inabitavel. Ela tem essa fantasia de que seu mundo vai desaparecer sob a agua e que bestas selvagens estao a espreita. Orlando disse que o filme tem algo de Sudoeste – mas mais poetico e selvagem, agora sou eu falando. Amei. De volta ao hotel, descobri que Kaneto Shindo morreu. Aos 100 anos – 100! Nao conheco muita coisa de sua extensa filmografia, mas conheco um puinhado de filmes – Os Filhos de Hiroshima, O Gato Preto e, claro, A Ilha Nua, que revi aqui mesmo, em Paris, no Reflets Medicis, numa versao restaurada, copia zero bala. A história de uma família, vista pelo olhar da crianca, como em Beasts, mas outro universo. Vidas secas aa japonesa. A mae carrega aqueles baldes de agua, uma dura rotina que o diretor repete, evitando tudo o que poderia tornar o filme glamouroso ou espetacular. O ultimo filme de Kaneto Shindo que vi foi The Last Note, eh isso nao?, num cinemas de arte de Nova York. Uma atriz perde o marido e volta para a cidade em que nasceu,  reecontrando amigos (e lembrancas). Impossivel falar de Kaneto Shindo sem falar de sua atriz fetiche, com quem, tenho quase certeza, ele foi casado – Nobuko Otowa. Ela estah em todos os seus filmes  que vi e em cada um o dioretor lhe resarva papeis distintos – maeh coragem, um furacao sexual, uma megera etc Conhecendo tao pouco o diretor, mesmo que em filmes chaves, nao me arrisco a uma abordagem mais profunda. Mas acho significativo que meu amado Luchino Visconti tenha sido jurado em Moscou, em 1961 – o ano de Rocco! -, tendo premiado A Ilha Nua ex-aequo com um Grigori Choukrai, nao lembro agora se A Balada do Soldado ou Ceu Limpo. Estou dando so um alo. Amanha, eu volto.