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Luiz Carlos Merten

27 Fevereiro 2008 | 16h19

Estou no meio de uma situação kafkiana, sentindo-me um personagem de Michael Moore em seu novo documentário, ‘Sicko’, sobre como as seguradoras de saúde nos EUA valem-se de cláusulas que ninguém lê para driblar os direitos de seus usuários. Viajei para a Alemanha com um cartão emergencial EBTO feito – é o verbo correto? – pelo jornal. Quando fiquei mal e precisei de atendimento de emergência, fui com o tal cartão e, no hospital, a funcionária me disse que era praxe pagar uma caução. Deram-me o recibo para restituição no Brasil. Achei que seria coisa fácil, mas desde ontem que estou numa conversa telefônica interminável. A seguradora informa que eu quebrei o contrato e que não poderia ter ido ao hospital, simplesmente. Teria de ter ligado para um número no Brasil, que acionaria a central na Alemanha e lá eles me diriam aonde ir. Vejam que eu não estava bem, não uso celular e não ia ficar deitadinho no quarto do hotel, à espera de que me contactassem, até porque estava no meio da cobertura de um grande festival, correndo de lá para cá. Tudo bem, quebrei o contrato e não vou ter restituição, mas acho que até Michael Moore adoraria ouvir o que me disse a funcionária – não dou o nome dela porque é capaz de sobrar para a infeliz. Ela me disse que, se eu tivesse caído no meio da rua e fosse levado para a emergência de qualquer hospital, não precisaria de autorização. Indo pelos meus pés, ó tonto, não tenho direito à restituição e o jornal vai ter de morrer com a despesa. ‘Sicko’ trata disso e mostra os lucros extraordinárias que as seguradoras de saúde têm nos EUA, alegando sempre quebra de contrato por parte dos pobres segurados. ‘Sicko’ tem as qualidades e os defeitos dos documentários de Michael Moore. Como sempre ele manipula e é showman, mas as histórias humanas são muito interessantes. Como a do bombeiro que foi herói no 11 de Setembro e não tem direito a atendimento nos EUA, porque o contrato não previa que ele poderia aspirar pó de cimento do desmoronamento das Torres Gêmeas. Aliás, quá-quá – seria cômico se não fosse trágico – o contrato não previa o ataque do terror em Nova York. É mole? O cara é finalmente atendido em Cuba, onde a assistência é para todos. E não é que o ‘comunista’ do Michael Moore se aliou à velha guarda cubana?