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Juventude Transviada (3)

Luiz Carlos Merten

03 Novembro 2007 | 15h28

Ray iniciou sua carreira em Hollywood pela mão de Elia Kazan, para quem foi ator e assistente de direção (em ‘A Tree Grows in Brooklyn’, que aqui se chamou, se não me engano, ‘Laços de Família’, comol a novela de Manoel Carlos). Kazan foi seu mentor e Ray viveu, a vida todo, obcecado para superar o mestre, que teve a carreira gloriosa que todo mundo sabe. Em 1955, Ray já trabalhava em ‘Juventude Transviada’ e ainda não tinha o ator para o papel de Jim Stark. Seu bangalô de diretor na Warner era próxiomo ao de Kazan e um dia o rival (coisa mais melodramática) o chamou para ver cenas do novo filme que havia realizado, ‘Vidas Amargas’ (East of Eden), baseado no romance de John Steinbeck. Bastou ver James Dean na tela para que Ray percebesse que a busca acabara – ele havia encontrado seu Jim Stark. Kazan havia explorado com Marlon Brando, em ‘Uma Rua Chamada Pecado’ (A Streetcar Named Desire), baseado em Tennessee Wiliams, aspectos obscuros da sexualidade humana, principalmente da masculina. Kowalskio era um bruto que terminava por encarnar as pulsões destrutivas de Blanche Dubois, a sublime Vivien Leigh (numa das maiores criações femininas da história do cinema). Ray, conscientemente ou não, foi ainda masis fundo que Kazan na discussão das questões do sexo. ‘Juventude Transviada’ virou um marco na história de Hollywood por ter aberto (parcialmente, pelo menos) um armário que o cinemão insistia em manter fechado. No film,e, Jim Stark tem aquela relação intensa com Natalie Wood, mas ambos formam uma família afetiva (ou substituta) com Plato, o personagem de Sal Mineo, que foi o primeiro adolescente gay de Hollywoopd, abrindo uma porteira por onde não cessou de passar gente depois. Plato tem fixação em Jim há uma cena em que literalmente o namora (devora?) pelo espelho (como expressão do narcisismo da juventude).Embora a cena não constasse no roteiro de Stewart Stern, os autores de ‘Live Fast, Die Young’ descobriram um memorando nos arquivos da Warner em que a grande questão é se Jim beijaria, ou não, Plato? Essa bissexualidade de Jim não era uma coisa fortuita porque existe documentação de que Dean e Ray, embora famosos por suas ligações com mulheres, tiveram também relações com homens (e o diretor, fiquei sabendo agora, viveu com o crítico Gavin Lambert sob o mesmo teto). O próprio Sal Mineo saía com mulheres, mas uma noite, na ausência da namorada – Jill Haworth, com quem contracenou em ‘Exodus’, de Preminger, em que fazia o jovem judeu abusado na cadeia-, levou um cara para casa e, a partir daí, assumiu que era gay, morrendo, anos mais tarde, esfaqueado por um michê. O livro de Lawrence Franscella e Al Weisel é impressionante como análise dos bastidores de ‘Juventude Transviada’, contando tudo sobre o processo de realização e também sobre a equipe, antes e depois. É emocionante acompanhar o relato da dupla sobre a marginalização de Ray em Hollywood, onde ele era considerado um diretor que não cumpriu a promessa inicial, e depois sua tentativa de construir nova carreira na Europa, onde era idolatrado por ‘Cahiers du Cinéma’, mas comeu o pão que o Diabo amassou com o produtor Samuel Bronston, com quem fez ‘Rei dos Reis’ – o ‘Juventude Transviada’ bíblico, com Jeffrey Hunter, como Cristo, na pele de um Jim Stark quer morre na cruz – e ’55 Dias de Pequim’. O livro cobre o encontro com Wim Wenders e analisa a decisão de Ray de permitir que o cineasta alemão filmasse sua agonia, quando estava morrendo de câncer – origem de ‘Nick’s Movie’, O Filme de Nick. Dei uma lida na vertical, meio siderado, e o que ficou para mim foi uma pergunta que não quer calar – por que diabos nenhuma editora brasileira quis até agora publicar este livro? Alô-alô? Quem se habilita? O cinéfilo brasileiro vai agradecer, com certeza.

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