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‘Juventude Transviada’

Luiz Carlos Merten

13 Junho 2011 | 19h33

Celdani me pede que comente alguma coisa sobre a exibição de ‘Juventude Transviada’ amanhã à noite, 22 horas, no TCM, no quadro de uma discussão sobre homossexualidade – sempre que escrevo homossexualismo os amigos militantes reclamam. Me acusam de estar incentivando o preconceito – homossexualismo é doença. O correto é homossexualidade. Temo haver insistido no preconceito no meu verbete para os filmes de amanhã, na edição do ‘Caderno 2’. Meu amigo (Celdani) também cometeu um equívoco, creditando ‘Juventude Transviada’ a Elia Kazan, quando a direção é de Nicholas Ray, que Jean-Luc Godard considerava o Rimbaud de Hollywood. Mais até do que ‘Vidas Amargas’, East of Eden, este sim de Kazan, ‘Juventude Transviada’ foi o filme que esculpiu o mito de James Dean como o grande rebdelde, o definitivo, da tela. A morte prematura de Jimmy Dean, a toda velocidade, após ‘Asim Caminha a Humanidade’, de George Stevens, somente consolidou a lenda – o público não guarda dele outra imagem senão a de Jim, Stark, naquela escada, naquele enquadramento meio enviesado, brigando com o pai. O filme de 1955 chama-se ‘Rebel Without a Cause’, Rebelde sem Causa (no original), mas direção e roteiro não fazem outra coisa senão buscar, e oferecer, motivos para a revolta de Jim. Em casa, na escola, os modelos são autoritários e ele reage, não uma expressão individual, mas o retrato de toda uma juventude – e uma intelectualidade – que recusavam o sonho americano, antecipando as grandes transformações comportamentais dos anos 1960. O próprio filme de Ray já havia sido precedido pela beat generation, pelo Laslo Benedek de ‘O Selvagem’ e pelo Richard Brooks de ‘Sementes da Violência’, para não falar dos rebeldes musicais como Elvis Presley. Jim só encontra compreensão na namorada, Natalie Wood, e no amigo Plato, Sal Mineo, com quem mantém uma relação ambivalente, porque ele, o garoto, o deseja. As sugestões permeiam o filme e contribuem para a sua aura. Hoje se sabe que James Dean e o próprio Nicholas Ray eram bissexuais e que Sal Mineo era gay – anos mais tarde ele foi assassinado, presumivelmente por um michê. Na sequência de ‘Juventude Transviada’, Mineo fez, cinco ou seis anos depois, ‘Exodus’, de Otto Preminger, no qual tem a cena mais forte de sua carreira, quando entra para a organização tererorista depois de confessar que foi usado como mulher. Não há nada asssim em ‘Juventude Transviada’, mas a cena do planetário é magnífica pelo que revela do desejo de evasão do trio, como se Dean, Natalie e Mineo sonhasssem com outro mundo no qual poderiam constituir a família perfeita. Os filmes sempre terminam por se ramificar no meu imaginário e eu me lembro daquele telescópio no escritório do príncipe Salinas, em ‘O Leopardo’, como se Burt Lancaster também sentisse necessidade de se evadir daquela família e da sua classe em declínio. Só a amante, que o acolhe com aquele ardor (‘Meu príncipe!’), não parece suficiente no filme de Luchino Visconti. De volta a ‘Juventude Transviada’, não é o meu Ray favorito e acho até que me decepcionei da primeira vez que o vi, dada a fama do filme. Com o tempo, comecei a viajar mais naquelas imagens, curiosamente quando fiquei mais velho, mas até hoje me parece que existem momentos convencionais ali dentro, que enfraquecem a força do conjunto. Mas o elenco… James Dean era tão…. Autêntico. Ele era ótimo nos momentos de ternura, mas era melhor ainda quando soltava o demônio interno que parecia querer destrui-lo (e aos outros). E, que, na verdade, conseguiu, naquela estrada do Texas. Vai lá, Celdani. Vê de novo o ‘Juventude Transviada’. Este é um daqueles filmes cujo culto transcende o cinema.