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Luiz Carlos Merten

03 Novembro 2007 | 14h51

Meu Amigo (com maiúscula) Tuio Becker, de Porto Alegre, sempre me contava parte da história que agora fiquei sabendo por inteiro. Há, no cinema de Nicholas Ray, um conflito visceral entre os heróis (trágicos) do autor e a autoridade. Tem origem na própria vida do artista. Ray radicalizou a máxima de seu mentor, Elia Kazan – “Transforme o trauma em drama”. Aos 16 anos, ele foi chamado no meio da noite pela amante de seu pai, um imigrante nórdico que nunca se havia adaptado muito bem à vida nos EUA, para socorrer o cara, que sempre foi um bêbado inveterado, mas naquele dia exagerou e morreu sufocado no próprio vômito. Psicanálise elementar – Ray nunca superou o trauma e virou, ele próprio, não apenas bêbado, como também um péssimo pai. Isso lerva ao próximo capítulo de sua danação pessoal. Em 1950, ele era casado com Gloria Grahame, estrela de filmes noir, incluindo ‘No Silêncio da Noite’, do próprio Ray, com Humphrey Bogart. Foi uma relação marcada, desde o começo, pelas brigas, mas o pior ainda estava por vir. Ray tinha um filho, Tony, de outro casamento, um garoto de 13 anos, que um dia bateu à porta do pai. Ele não estava e, quando Ray chegou, ouviu barulho no quarto e abriu a porta para ver o filho comendo a madrasta. O casamento implodiu, claro, Ray expulsou o filho (e nunca mais falou com ele) e o mais doido é que, dez anos depois, Tony Ray se casou com Gloria e virou padastro do meio-irmão que sua agora mulher tivera com seu pai. Coisa, hein? Essa, nem Nelson Rodrigues conseguiu imaginar. Mas a verdade é que tudo isso – o pai e o filho – levou Nicholas Ray a ‘Juventude Transviada’. Só que tem mais.