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Luiz Carlos Merten

15 Junho 2009 | 16h52

Olá! Havia abandonado o blog durante dois dias. Fui ver agora qual o último texto que postara para não me repetir e vi que o post sobre Helmut Käutner saiu duplo. No sábado, terminei não (re)vendo ‘Rocco’. Revi em casa, ó céus, ‘Três Vezes Amor’, com Ryan Reynolds, e mesmo me arriscando a levar pedrada quero dizer que acho aquela comédia romântica uma simpatia. Ontem, trabalhei, Tinha a capa do Panorama do Cinema Francês, que começa amanhã aqui em São Paulo. Aliás, antecipo que amanhã, na Reserva Cultural, haverá um debate com o diretor de ‘Bem-vindo’, Philippe Lioret, do qual serei mediador, à noite. O filme fez sensação na França porque discute a imigração, por meio desse garoto que ganha ajuda de um instrutor para atravessar a Mancha a nado, em busca da namorada na Inglaterra. Espero que a gente se encontre amanhã. Me lembro que, quando entrevistei o Olivier Assayas, em janeiro, em Paris – por causa de ‘Horas de Verão’ –, alguns de vocvês me pediram que não deixasse de publicar a entrevista, independentemente de o filme estrear ou não. O texto está no ‘Caderno 2’ de hoje, mas, se vocês não tiverem acesso, prometo colocá-lo no blog. Ontem à tarde, ao sair do jornal, duas e tanto da tarde, corri ao Shoppinfg D para (re)ver ‘Intrigas de Estado’. Não gostei do thriller de Kevin McDonald, mas tanta gente achou interessante que resolvi me dar – ou dar ao filme – uma segunda chance. Acho legal o elogio da reportagem escrita, da mídia impressa, no fim, mas o filme não me desce e eu, mesmo me expondo ao ridículo, vou ter de admitir que não entendo o desfecho. Caso vocês não tenham visto, parem aqui. Mas, acontece o seguinte, quando tudo parece resolvido, o bravo soldado da notícia, Russell Crowe, empaca na observação que Robin Wright Penn fez, segundo a qual seu marido (Ben Affleck) dormia com a mulher que havia recebido tanto para isso. Crowe dá-se conta de que nunca falou o valor para Robin. Ele corre ao escritório do senador, mas quando entra na sala ele vai logo perguntando quem é fulano e se esquece do detalhe que parecia importante. Devo ter perdido algum elo ao não fazer a ligação entre o detalhe do dinheiro referido por Robin e o sicário a soldo de Affleck 9o cara nem é sicário, é assassino por ‘consciência’). As mãos dadas de Affleck e Robin no carro indicam que seria um plano dos dois, usar o ex-soldado para matar e o jornalista para encobrir o crime? Muito complicado, mas nem vou fazer força para entender porque achei o thriller do McDonald bem ruinzinho, sorry. E os personagens? De que lata de lixo tiraram o super Crowe, com aquele visual? E a editora Helen Mirren? Cassem o Oscar dela, pelamor de Deus. Esta mulher está se acabando… Fui rever hoje de manhã ‘Trama Internacional’, de Tom Tykwer, com Clive Owen e Naomi Watts e, comparativamente, confesso que terminei gostando do thriller que não me havia impressionado no Festival de Berlim (exceto pela cena espetacular do tiroteio no Museu Guggenheim). O poder das corporações em um filme, o dos bancos no outro se assemelham, mas eu embarquei no de Tykwer por causa de Owen e Naomi, que fazem toda diferença. Gostei muito de uma cena com Armin-Mueller Stahl, quando ele diz que a ficção tem de fazer sentido,a realidade não. É justamente o que me incomoda em ‘Intrigas de Estado’. Aquela ficção não faz sentido, pelo menos para mim, aquele elogio à imprensa contra a política, ou os políticos, mas ali ninguém é flor que se cheire, como percebe a aspirante a repórter Rachel McAdams, que vai aprendendo na porrada, comprometendo-se com métodos excusos e quetais, só para no fim assinar uma reportagem com Russell Crowe. No final de ‘Trama Internacional’, é a família, por meio da Máfia, que consegue fazer justiça contra o banco. É uma solução de ficção, mas catártica. Quando o entrevistei em Berlim, Tykwer me disse uma coisa que achei curiosa. Havia comentado com ele a importância da arquitetura – e da cor – no filme para expressar esse mundo desumanizado, de vidro, onde tudo é transparente, mas nada se revela. Acho que seria possível pensar o mundo atual só a partir desse detalhe. Todo mundo, a imprensa inclusive, cobra transparência, em tudo. A moderna arquitetura transforma as sedes desses conglomerados em palácios de vidro, mas não há transparência, porra alguma. Muito interessante. A conversa com Tykwer evoluiu nesse sentido e ele me falou num diretor francês cujo nome não ouvia há anos. Quem se lembra de Henri Verneuil? Tykwer me disse que a grande referência, inclusive arquitetônica, em seu thriller, é Verneuil. Fui ao nosso querido Jean Tulard. Vejam o que ele diz – ‘Com seu cinema de sábado à noite, Henri Verneuil não goza de boa reputação junto aos cinéfilos. Mas é tempo de lhe render justiça. Ele conhece sua profissão e não despreza jamais o público que assegurou o êxito de seus filmes.’ Verneuil dirigiu policiais com os maiores durões da França – Gabin, Delon, Belmondo, Ventura. Tem um thriller dele de que guardo uma lembrança forte – ‘A Serpente’, com Yul Brynner, Henry Fonda, Dirk Bogarde e Philippe Noiret, gélido, complexo, perturbador, sobre a caçada a um dissidente da KGB que está desertando para o Ocidente. E ele fez ‘I como Ícaro’, com Yves Montand, que agora, retrospectivamente, me dou conta que talvez tenha sido o modelo de Tom Tykwer para ‘Trama Internacional’. Montand faz op procurador que investiga assassinato de político e descobre uma conspiração. Verneuil se in spirou nas pesquisas do psicólogo norte-americano Stanley Milgram sobre submissão à autoridade. Para Milgram, qualquer indivíduo pode realizar atos contrários à sua consciência ou vontade, desde que se sinta protegido por uma autoridade superior. isso explica muita couisa, não? Jean Tulard está certo. É mais do que tempo de fazer justiça a Henri Verneuil. E quem está começando isso é Tom Tykwer.