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Cultura » ‘Junie’, melhor ainda

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Luiz Carlos Merten

04 Janeiro 2009 | 23h17

Fui rever agora à noite ‘A Bela Junie’. O hall do (ou da?) Reserva Cultural estava lotado. Duas grandes filas – uma para ver o filme de Christophe Honoré na sala 1 e outra para ‘Um Conto de Natal’, de Arnaud Desplechin, na 2. Na saída, estava com um amigo, fomos pegar o carro no estacionamento em frente. Na fila do caixa, um grupo discutia animadamente – e a participação ‘amigável’ de Chiara Mastroianni no filme do Honoré? Eles não haviam reconhecido a filha de Marcello Mastroianni e Catherine Deneuve, que aparece rapidamente, tomando café e sorrindo para Junie (Léa Seydoux), na cena do bar, enquanto Alain Barrière canta ‘Elle Était Si Jolie’. (Chiara tem uma participação muito maior, e mais significativa, em ‘Um Conto de Natal’, mas achei-a linda e creio que se trata de um ‘clin d’oeil’ – uma piscadinha de olhos… – de Honoré para Manoel de Oliveira. Afinal, uma carta é importante na ‘trama’ de seu filme e Chiara fez justamente ‘A Carta’ com o mesmo português.) Não sei se posso dizer que gostei ainda mais do filme do Honoré do que da primeira vez, porque já havia gostado bastante. Ouvi a reclamação de uma espectadora – o filme não tem adultos. Não aparecem os pais nem responsáveis. Só os alunos e os professores, que, em matéria de amor, são adolescentes como eles. A única personagem ‘madura’ é a garçonete – que puxa as orelhas do professor e oferece a canção para Junie. Se esse é o defeito do filme, então gosto dele justamente pelo defeito. (Em março, quando estrear ‘Entre les Murs’, de Laurent Cantet, vocês verão um filme de escola com alunos, pais e responsáveis, porque lá a abordagem é outra, mais ‘social’.) Honoré fez um filme sobre educação sentimental, à Truffaut. ‘A Bela Junie’ é livremente adaptado de ‘A Princesa de Clèves’. É a versão nouvelle vague do clássico de Madame de Lafayette, que Jean Delannoy filmou academicamente em 1960 – recebendo o Grand Prix Téchnique du Cinéma Français, em plena nova onda -, tal como seria feita por um discípulo (aplicado) do movimento. Isso já escrevi, mas vamos exemplificar. Quando Louis Garrel diz a Léa, no fim, ‘Precisamos conversar’ e eles correm pela rua, com aquela frase musical, a cena é puro Godard. Pode ser que não signifique nada para 99% dos espectadores, mas eu quero acreditar que significa, sim. Para mim, significou. É o filme e toda uma carga de referências que me somam e acrescentam. E eu adorei (re)ver Paris. Em pouco mais de uma semana espero estar lá. Paris no inverno. Poderia cantar ‘Cheek to Cheek’ – ‘I’m in heaven’ -, mas, em homenagem à ‘douce França’, apesar de Sarkozy, prefiro ficar com Alain Barrière, cuja canção (de 1963) faz parte da minha juventude. Da minha ‘jeunesse’, como diriam os franceses.

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