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Luiz Carlos Merten

20 Maio 2010 | 20h02

CANNES – Tive hoje um de meus melhores dias neste festival. Foi cansativo, sob certos aspectos estressante, mas me senti gratificado – e como! Pela manhã assoisti a ‘Fair Game’, thriller de Doug Liman, o diretor que formatou a série ‘Bourne’, com Matt Damon, e realizou ‘Sr. e Sra. Smith’, com a dupla Bragelina. Achei bem interessante. O filme baseia-se na história real da agente da CIA cuja identidade foi revelada pelo governo de George W. Bush, em represália às críticas do marido dela sobre o falso motivo alegado para invadir o Iraque (as tais armas nucleares que nunca foram encontradas). Cannes, em 2010, tem mostrado muitos filmes sobre paternidade e também sobre o caos social. Temos aqui um caso de falta de ética do governante. Numa situação parecida, e também falando do Iraque, Ken Loach parece ter-se cansado da pregação política e transforma seu personagem num terrorista em ‘Route Irish’. Bomba neles! Gostei muito mais da solução ‘institucional’ de Doug Liman, que culmina numa montagem paralela muito forte, que não pretendo entregar agora, mas vocês poderão confirmar, quando o filme for lançado no Brasil (pela Paris).

Na sequência, entrevistei Stephen Frears (por ‘Tamara Drewe’) e o russo Sergei Loznitsa, cujo ‘My Joy’ é, para mim, o grande filme desta edição de Cannes. Depois de Loznitsa e seus atores, tive o que para mim foi uma surpresa e um privilégio. Fui chorar minhas pitangas – a expressão é gaúcha – para a assessora de imprensa do belo filme de Abbas Kiarostami, ‘Copie Confiorme’.  Queria entrevistar Juliette Binoche, mas não  havia conseguido horário. Insisti e devo ter sido tão convincente que assessora, Vanessa Jerrom, disse que ia ver se Juliette, que estava terminando seus compromissos, me concedia dez minutos. Ela não só concedeu como ficamos conversando meia hora, o qyue, para mim, foi um momento mágico.

Mas meu dia ainda não terminara. Desisti da versão restaurada de ‘Psicose’, em Cannes Classics, para ver o enigmático ‘Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives’, do tailandês Apichatpong Weerasethakul, filme desconcertante, mas muito bonito, embora não tenha me produzido o encantamento de ‘Maladie Tropicale’, Mal dos Trópicos. O filme anterior de Apichatpong se passava naquela exuberante selva na qual entrava, de repente, a história do caçador de tigres. A floresta aqui está de volta e é habitada por fantasmas, embora as vidas de que Tio Boonmee consegue se lembrar sejam suas encarnações como animais e outros seres. É tudo muito cifrado e eu confesso que não consegui desenrolar – ainda – aquele novelo, embora o clima me tenha parecido sedutor, principalmente quando entra a história da princesa desejada por um dos carregadores de sua liteira e que é possuída por um peixe, na cena da cachoeira – uma caschoeira, de resto, tão linda, que nosso Humberto Mauro teria ficado feliz de filmá-la. Depois da selva entra uma caverna, cuja parte mais profunda – escura – se assemelha a um céu estrelado. Tudo muito, qual é a palavra?, misterioso?

E ainda teve mais. Fui ver a sessão oficial de ‘Rebecca H’, o novo Lodge Kerrigan, de volta a Cannes, onde já o entrevistei por ‘Clean, Shaven’ e ‘Claire Dolan’. Gosto muito de Kerrigan, de seu rigor e sempre lamentei muito o que ocorreu com ele, anos atrás. Kerroigan fez um filme com Peter Skarsgaard e Maggie Gyllenhaal, ‘In God’s Hands’, que foi inteiramente perdido quando o negativo original foi acidentalmente destruído. Kerrigan foi apresen tado por Thierry Frémaux como ‘un três grand metteur-en-scène’. Ele agradeceu os atores, =Geraldine Pailhas e Pascal Gregory – e disse que íamos ver um musical. Frémaux, que fazia a tradução para o francês, é um entertainer. Ele fez cara de surpresa – uma comédia musical? Ah, bom -, com cara de quem achava que o filme que havia selecionado foi trocado por outro. ‘Rebecca H (Return to the Dogs)’ nasceu de uma (ins)piração que Kerrigan teve ao ver o rosto da vocalista do Jefferson Airplane, Grace Slick, no documedntário ‘Monterey Pop’, de D.A. Penebaker, em 1968. ‘Rebecca H’ segue o formato do filme dentro do filme e o próprio Kerrigan é o diretor que faz uma ficção sobre Grace. A personagem é interpretada por Geraldine, mais do que no filme de Kiarostami, é difícil estabelecer os limites entre o que é falso e verdadeiro. Na verdade, tudo é ficção e Geraldine, depois de repetir a mesma cena com diferentes entocações, várias vezes, passa o restante do filme caminhando. Ela caminha para uma tragédia anunciada por flash-forwards e o filme fica cada vez mais perturbador, principalmente quando a atriz é penteada e maquiada para ficar igual a Grace Slick no documentário de Pennebaker. Teve gente que não aguentou e saiu no meio. Eu fico chapado com o rigor de Kerrigan, pela maneira como ele usa a arquitetura – e o enquadramento – para passar uma emoção fria. Pesquisem na internet. Talvez já exista registro da apresentação no You Tube. Vai valer a pena conferir a exuberância de Geraldine Pailhas na saia mais mini que já vi na história de Cannes (ou em qualquer momento da minha vida). O mais interessante é que Kerrigan, conscientemente ou não, esculpiu em Geraldine sua atriz de ‘Claire Dolan’, Kathryn Cartlidge, que morreu prematuramente. Em alguns momentos, eu, pelo menos, tinha a impressão de estar vendo Kathryn. Até por isso, o filme me tirou do esquadro. Socorro! Já é uma da manhã aqui. Bye, até amanhã.