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Julie Christie, aquele demônio de mulher

Luiz Carlos Merten

23 Agosto 2007 | 19h17

Antônio Gonçalves Filho me chamou agora na redação do Estado para dizer que está saindo em DVD um filme ‘da nossa juventude’. Perguntei qual, já que são tantos. É o Petúlia, do Richard Lester, lançado pela Magnus Opus. Lester foi aquele diretor que absorveu as lições de corte-e-montagem na célebre cena do assassinato na ducha em Psicose e inventou o videoclipe, ao fazer de Os Reis do Ié-Ié-Ié um falso documentário sobre um dia na vida de uma certa banda em Londres, em 1964, os Beatles – vocês já ouviram falar? (Brincadeirinha…) Na seqüência, Lester dirigiu de novo os Beatles em Socorro! e o filme é tão ‘desestruturado’ que o cineasta o dedicou ao inventor da máquina de costura. Seguiram-se A Bossa da Conquista, que ganhou a Palma de Ouro em 1965; Um Escravo das Arábias em Roma, com uma participação memorável de Buster Keaton; Como Ganhei a Guerra, com John Lennon, e só então, em 1968, Lester fez Petúlia, que no Brasil recebeu um acréscimo ao título original – ficou Petúlia, Um Demônio de Mulher. Faz muito tempo que não revejo Petúlia, mas guardo a lembrança de um filme brilhante, que aplica a ‘descontinuidade’ (ou ‘desestrutura’) dos filmes com os Beatles a uma história sobre médico divorciado que se envolve com mulher complicada em São Francisco, nos loucos anos 60. Julie Christie faz a personagem-título, George C. Scott é o médico e Richard Chamberlain é o marido pirado da protagonista, mas quem rouba a cena, se a memória não me falha, é Shirley Knight. Lester foi decisivo na minha juventude e na de qualquer um que foi jovem, na época. Seu humor, sua irreverência tinham a cara dos anos 60, mas acho que foi nos 70 que ele fez seus melhores filmes. Acho Robin e Marian, com Sean Connery e Audrey Hepburn, sobre o herói que volta das Cruzadas e encontra a amada num convento, um dos filmes mais melancólicos que já vi. Há uma tristeza tão grande na história dos mitos que vão envelhecendo. Paradoxalmente, a Robin e Marian segue-se, na obra do diretor, A Juventude de Butch Cassidy, em que ele percorre o caminho inverso e conta a história dos verdes anos dos personagens interpretados por Paul Newman e Robert Redford no western de George Roy Hill, de 1970. Para concluir, lembro sempre da história que Joseph Losey contou a Tom Milne, no livro com a entrevista que deu ao crítico e historiador. Losey atravessava não sei que apuro durante a conclusão de Estranho Acidente, um de seus filmes escritos por Harold Pinter (com Dirk Bogarde, Stanley Baker, Jacqueline Sassard e Delphine Seyrig). Lester, gentilmente – e sem qualquer ônus, nem crédito –, fez a mixagem de som para ele, para ajudar numa obra que lhe parecia tão importante (e é). O artista a gente avalia pelos filmes. Essa história eu acho que revela o homem.