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Luiz Carlos Merten

12 Junho 2007 | 15h15

O mesmo projeto do Festival do Rio que me levou a falar com Hector Babenco na semana passada me levou ontem à tarde à O2, para falar com Fernando Meirelles. Foi ótimo. Encontrei-o animadíssimo com o novo filme, Blindness, adaptado do Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago, que ele vai fazer para um produtor canadense, Don McKellar, o mesmo cara que co-escreveu (com o diretor Francis Girard) e produziu 32 Curtas sobre Glenn Gould. Fernando ia iniciar a rodagem por São Paulo, mas não estava gostando da idéia, porque isso seria começar o filme pelo fim. Em acordo com o produtor canadense – a maior parte da grana dos US$ 25 milhões vem do Japão; a O2 virou produtora associada – , ele remanejou o cronograma de produção. Começa no fim de julho no Canadá, filma no Uruguai (Montevidéu) e termina em São Paulo, em setembro. A Fox, que já é parceira da O2 em Não por Acaso, entra com a verba brasileira por meio do artigo terceiro. Julianne Moore e Alice Braga são as estrelas – e Julianne vem filmar em São Paulo, gente! O protagonista masculino, que chegou a ser anunciado que seria Daniel Craig, é outro. Fernando me disse em off com quem está negociando e espera assinar em seguida. É quente. O mais incrível é que ele contou que, após Menino Maluquinho 2, o primeiro longa, que não considera seu – um pouco porque se trata de uma co-direção, mas também porque caiu na produção de pára-quedas, substituindo Daniela Thomas que, devido à gravidez, não poderia fazer o filme com a irmã, Fabrizia Alves Pinto –, Fernando começou a trabalhar em dois projetos. Queria fazer O Matador, mas Patrícia Melo terminou vendendo os direitos para José Rubem Fonseca, filho do mentor dela, Rubem Fonseca. Tentou, desesperadamente, adquirir os direitos do Ensaio sobre a Cegueira, mas Saramago não quis vender, alegando que o cinema destrói a imaginação, o que iria contra o conceito do livro. Muita gente quis adaptar o Cegueira (Whoopi Goldberg, Gael García Bernal), mas Saramago sempre disse não. Fernando contou como McKellar conseguiu convencê-lo, mas isso eu vou deixar para quando fizer a reportagem para o Estado. Com esses dois projetos por terra, Fernando foi fazer Cidade de Deus, que virou o cult que todo mundo sabe. Todo esse tempo depois, ele recebeu um telefonema do McKellar perguntando se já havia ouvido falar de um livro de um escritor português, coisa e tal… Dez anos depois, Cegueira caiu no colo de Fernando Meirelles! O filme, em inglês, vai se chamar Blindness. Fernando está pensando em deixar só Cegueira no Brasil. Com Ensaio na frente, fica muito intelectualizado, muito pedante e não é disso que se trata. A história é maravilhosa, permite múltiplas leituras – é o Fernando quem diz isso. Sou forçado a uma confissão. Nunca terminei nenhum dos vários livros de Saramago que iniciei. É um caso único. Acho ilegível. Tento/tento e não consigo. Por que ele não escreve com aquela fabulação que revela em seu depoimento oral para Janela da Alma? É um dos meus favoritos no documentário do João Jardim e do Walter Carvalho. Como escritor, não entro na dele. Vai ser legal, espero, ler o livro na transcodificação audiovisual do Fernando.