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Luiz Carlos Merten

01 Abril 2008 | 08h32

Olá! Voltei na madrugada de ontem do Chile, mas tive um dia tão agitado que não me sobrou uma horinha para postar. Tinha matérias pela manhã, um almoço para fazer reportagem, reunião de pauta à tarde e um documentário que queria ver no fim do dia, no festival É Tudo Verdade. Para completar, morreu Jules Dassin. Começo por aí. Engraçado é que, por volta das 11 horas, Antônio Gonçalves Filho veio me dizer – estava na Redação, como agora – que havia visto ‘Cidade Nua’ no fim de semana. De tarde, quando lhe contei que Dassin havia morrido, ele tomou um choque. Toninho amou ‘Cidade Nua’. O filme é bom demais, com cenas antológicas que fazem parte do meu imaginário. Deu origem a uma série de TV que foi muito popular (e que eu adorava nos primórdios da televisão brasileira). Na carreira de Dassin, integra a série de quatro filmes noir que fizeram a glória do diretor nos anos 40 e 50. ‘Brutalidade’ (Brute Force), também disponível em DVD; ‘Cidade Nua’, que incorpora lições do neo-realismo italiano ao thriller policial; ‘Mercado de Ladrões’; e ‘Sombras do Mal’ (The Night and the City), sobre pugilismo, em Londres, que é a sua obra-prima (e cujo elenco é liderado por Richard Widmark, que morreu na semana passada). No começo dos anos 50, delatado por Edward Dmytryk, Dassin entrou na lista negra do macarthismo e prosseguiu sua carreira na Europa, fazendo filmes na França e na Grécia, onde conheceu a mulher de sua vida. Os críticos sempre foram duros em relação à parceria de Dassin com Melina Mercouri. ‘Sempre aos Domingos’ foi um grande êxito, ela foi melhor atriz em Cannes, a canção de Manos Hadjidakis virou um hit e, para coroar, o próprio Dassin dirigiu, mais para o fim dos 60, o musical da Broadway inspirado em seu filme – ‘Ilya, Darling’, com Melina (claro). Depois vieram ‘Profanação’, baseado em ‘Fedra’; ‘Topkapi’; ‘Corações Desesperados’; ‘Promessa ao Amanhecer’; ‘The Rehersal’ e ‘A Dream of Passion’, que nunca vi. Dassin, fazendo filmes para a mulher, foi perdendo o respeito da crítica, mas eu até me pergunto – será que é justo? Talvez ele tenha sacrificado a obra, mas amou Melina e foi feliz com ela, que morreu nos anos 90. O curioso é que Dassin havia feito seu último filme, com Richard Burton, ‘Círculo de Dois Amores’, em 1981. Depois parou, por problemas de saúde, mas viveu mais 27 anos (morreu com 96) e enterrou sua amada Melina há quase 15. Não sou tão duro com a fase MM de Dassin. Acho ‘Topkapi’ bem legal e tenho uma mórbida fascinação por rever ‘Corações Desesperados’, que se baseia em Marguerite Duras e tem também Romy Schneider, Peter Finch e Julian Mateos, como este estranho que irrompe na vida das mulheres e as envia ao perigoso território do interdito. O tema é 100% ‘durasniano’ e algumas pessoas me juram que o filme foi subestimado. O próprio Antônio Gonçalves Filho, que ontem elogiava tanto ‘Cidade Nua’, me comentou na semana passada que vai sair no Brasil o romance de Romain Gary, ex de Jean Seberg, que inspirou ‘Promessa ao Amanhecer’. Segundo ele, o livro é tão bom que seria difícil estragá-lo. Para encerrar, em ‘Sombras do Mal’ existe aquele velho personagem apaixonado pela tradição da luta greco-romana. Será que já era Dassin, tão atraído pelo mundo antigo que foi à Grécia e lá ficou? Em ‘Nunca aos Domingos’, ele foi muito criticado por chamar o próprio personagem – aparecia como ator – de ‘Homero’. Acharam, os críticos, que era muita presunção. Mas Dassin estava feliz, apaixonado. E viveu quase 100 anos. Um século! Não sei se ele escreveu alguma autobiografia, mas com certeza teria o que contar.